Competências da sala de aula até a gestão do conhecimento: esse é o perfil das práticas docentes do século XXI

Há anos tenho trabalhado no desenvolvimento de estratégias ativas de aprendizagem, na graduação e pós-graduação em Saúde, com interfaces para a Engenharia Biomédica. Os resultados sempre são supreendentes.

Há anos tenho trabalhado no desenvolvimento de estratégias ativas de aprendizagem, na graduação e pós-graduação em Saúde, com interfaces para a Engenharia Biomédica. Os resultados sempre são supreendentes.denise workshop 9cif

Desde Setembro comecei um projeto novo, que nasceu da troca de experiências com colegas em congressos, cursos e oficinas.

Nessas ocasiões, em que nos dedicamos a falar de perspectivas de futuro da profissão, percebi que profissionais das áreas da saúde atuantes na docência ainda estão meio deslocados dessa nova nomenclatura e trends que o moderno mercado de trabalho vem imprimindo às formações profissionais. Somos “velhos” demais, talvez.

Em algumas conversas cheguei mesmo a ouvir a pergunta “o que é esse tal de Design Thinking? Tem alguma utilidade prática na sala de aula?“.

Sim, há quem desconheça totalmente uma das ferramentas mais eficiente para modelagem de solução de problemas complexos, independente da área em que ele á aplicado. E foi nesse momento que tive meu próprio Insight Docente: acho que pertenço a uma área onde o conceito T-shaped professional está mais para um I-shapped mesmo… Por favor, não nos culpem! Fomos formados para pensar e atuar assim.

Verdadeiramente eu entendo as dificuldades dos colegas. Sou fisioterapeuta há 32 anos (completos nesse Dezembro/2017) e passei da máquina de escrever à computação gráfica para análises e medidas de movimentos em imagens. Algo chamado cinemática, coisa que nem era possível ou viável à época da minha graduação. Aliás, inimaginável também…

Meu currículo poderia se enquadrar no que se considerava “feio e torto” para os contemporâneos das décadas de 80 e 90, época em que um currículo impecável era composto de uma mesma área/linha de pesquisa, da graduação ao doutorado (e pós-doc). Fazer o que?! Minha curiosidade nata “enfeiou e entortou” minha formação, porque me levou ao Lato Sensu nas Ciências Biológicas e da Vida, ao Mestrado na Fisioterapia (esse é “normal”), ao doutorado na Medicina (onde desenvolvi um novo processo de pensar a análise quantificada de movimentos) e ao pós-doutorado na Engenharia Biomédica (onde desenvolvi novas maneiras de usar os mesmos equipamentos). Sim, sou meio Prof. Pardal mesmo, admito (entendedores entenderão!).

Mas o tempo passa e os paradigmas mudam. Já diziam poetas e sábios de frases de mídias sociais que nada permanece o mesmo, e que estabilidade é algo que não existe. Eu aprendi isso na virada do novo século, porque meu currículo Patinho Feio virou Cisne Real! Quem diria que possuir inquietação e curiosidade, possuir competências socioemocionais para a solução de problemas práticos, transitar fácil e empaticamente por diferentes áreas do conhecimento – as tais transversalidades – e fazer disso sua área de trabalho e pesquisas seriam atributos valiosos na nova era tecnológica?!

Acho que dá para afirmar que aquela mesma curiosidade que me levou por caminhos tortuosos de formação – em uma época – se tornou preciosa e agregou valor aos meus conhecimentos e minha práxis profissional. Os caminhos “dantes nunca navegados” por profissionais que tinham os tais currículos “bonitos” foram os que me levaram à competência rara (para os da minha geração X) de atuar com excelência nas transversalidades, de dialogar empaticamente com diferentes tribos, de repensar o status quo dentro das rígidas áreas de atuação do profissional da saúde.

E de ter formação acadêmica sólida para levantar a minha voz e dizer: “meu povo! tá na hora de acordar e mudar o rumo dessa embarcação chamada profissional de saúde!”. Bem, cá estou eu.

O mercado é outro. Os pacientes são outros. As tecnologias e o acesso à informação, então, desnecessário falar! Mas continuamos formando profissionais para atenderem como no século passado, no esquema 10-sessões (para Fisioterapia), provavelmente mais preocupados com o produto (atender-e-ponto) do que com o processo (a experiência do usuário e a efetividade do impacto de opções terapêuticas sobre a função).

mindset

Às portas do meu tempo para aposentar como docente do Ensino Superior (no qual atuo há exatos 31 anos), e com 2 cirurgias de coluna que me impedem de prospectar projetos que demandem de mim um alta mobilidade corporal (como voltar a atender clinicamente, ou viajar dando consultorias e aulas em pós-graduações), resolvi reorientar minhas perspectivas de carreira.

Afinal, penso eu (e os que me conhecem também dizem) que tenho background suficiente para colaborar com as novas gerações nesse árduo processo de mudança dos paradigmas educacionais e, por decorrência, do perfil dos negócios que envolvem o profissional da saúde/Fisioterapia.

AIAlém disso, por atuar sempre junto a outros cursos de graduação, minha visão é mais abrangente e não possui o viés de defender somente aquilo que reconheço em publicações de alto impacto: estou sempre atenta, mas aberta às questões e projetos que envolvem Big-Datadesigner de movimentos para alimentar bases de inteligência analítica, e algoritmos para solução de problemas em saúde.

É… O conceito de evidência está mudando também e não é uma questão de render-se ao popular ou a uma tecnopseudociência. É a questão de que (muito breve) vamos ter que passar por repensar toda a própria ciência (e as evidências atuais) sobre as quais praticamos nossas tomadas de decisão clínica. Watson, Siri, ADA e AlphaGo Zero estão aí para provar esse ponto de vista.

insights docentes cover YT

Foi desse caldeirão de experiências que nasceu Insights Docentes”, um canal no YouTube que estou desenhando para funcionar como mini-séries de diálogos sobre como eu fiz diferente a minha sala de aula, e as minhas ações de gestão e consultoria, no âmbito do Ensino Superior, ao longo dos últimos 15 anos.

Pequenas doses de reflexão em vídeos curtos, para suscitar a inquietação em quem quer mudar e não sabe por onde começar. Para este canal estou convergindo toda minha produção anterior, em Metodologias Ativas, frutos das parcerias que tenho e para as quais produzo material multimídia. Mas também estou dedicada às novas produções.

Na verdade, acho que posso descrever o Insights Docentes um portfolio sobre como vejo, percebo, reajo e interajo com as mudanças na Educação, que começaram por demanda espontânea há cerca de 4 anos, e que agora tomam formato de demanda obrigatória com as mudanças que vêm sendo conduzidas na Legislação Educacional brasileira.

O canal está tomando formato e densidade. Tem que ter seu próprio timing, e ainda tenho muito a andar pela frente, mas confesso que a essa altura da vida, é animadora a ideia de interagir e transformar outras práticas docentes (além das minhas e daqueles que me cercam).

Junto com o canal, desenhei já 2 cursos online, na Udemy, que abrem um desfile para o novo desafio: um novo curso/mês (ou quase isso), com foco em capacitar colegas docentes para essa nova era de tecnologias a serviço da vida. Simples, prático, direto, objetivo, com foco na solução de problemas cotidianos. Cada um desses 2 cursos já prontos foi desenhado para discutir mindset docente e as novas competências profissionais do século XXI, e possui trechos disponíveis no canal Insights Docentes.

1- Oficina online: NOVAS TRILHAS MENTAIS DOCENTES E DISCENTES

Essa foi a oficina online de Novembro: um convite para compreender a ansiedade que vivem professores e estudantes em sala de aula, mediados (ou há quem traduza isso para atormentados) pelas revolução que as tecnologias fizeram (e ainda vão fazer muito!) em todos os aspectos de como se vive e como se dá a relação de consumo, já que Educação é um bem de consumo.

Nessa oficina foram trazidos alguns conceitos novos, advindos de outras áreas, especialmente das neurociências. Nela falamos de foco, trilhas mentais e de aprendizagem, a relevância dos distratories emocionais como estratégia de engajamento estudantil na aprendizagem, desenho de comportamento (behavior design), Design Thinking e captura neural para aprendizagens significadas.

2- Curso online: ECOSSISTEMA EDUCACIONAL SUSTENTÁVEL

Já o curso de Dezembro (adiantado porque mereço férias!) possui um conteúdo voltado para a compreensão da prática docente como uma extensão ativa da gestão do conhecimento. Nele, eu parto do conceito da autopoiese dos pilares universitários de Ensino, Pesquisa, Extensão e Gestão e, sobre eles, desdobro mapas de ações para autossustentabilidade de um curso superior como uma unidade de negócios.

O objetivo é que o docente compreenda os elementos e as conexões que devem ser consideradas ao elaborar planos de ensino e planos de aula, para um curso superior atingir excelência nas avaliações externas. Ideal para ampliar repertórios de quem se prepara para concursos públicos e para aqueles que estão na carreira docente e querem se reposicionar, aspirando aplicar sua experiência às consultorias/assessorias em gestão universitária.

O curso Ecossistema Educacional Sustentável mostra ainda que, sozinhas, as metodologias ativas podem perder sua essência e efetividade de função (que é a aprendizagem significada), e se perder como “mais um modismo que não deu certo”. Assista à primeira aula aqui, ou vá até o curso e assista também outras aulas que são liberadas para apreciação.

Com o mindset preparado pelos 2 cursos iniciais, os colegas terão acesso a partir de Janeiro/2018 aos cursos instrumentais, com foco para a gestão da unidade curricular em articulação com o Projeto Pedagógico (que já deveria se chamar andragógico) de Curso/PPC, atendendo às Diretrizes Curriculares Nacionais/DCN (que ainda estão mudando e não possuem texto final). Mas não se para por aí!

É preciso sintonizar e atender aos novos instrumentos de avaliação (cujos extratos publicados já confirmaram as trends que se anunciavam desde Junho/2017), formando competências para solução de problemas reais e com aptidões para vantagem competitiva do egresso – e da instituição de ensino superior que o forma – no mercado de trabalho.

consultoriaPor meio de mapas passo a passo, canvas e algoritmos, a partir de Janeiro compartilho minhas práticas sobre elaboração de Planos de Ensino e Planos de Aulas com metas para atendimento aos domínios de aprendizagem e múltiplas inteligências dos estudantes. É a PERSONALIZAÇÃO.

pesquisas nao formaisA adoção de conceitos, estratégias e ferramentas das neurociências do foco e aprendizagem para o desenho de trilhas mais efetivas e que tragam significado ao estudante faz parte da segunda etapa. É o comprometimento do estudante (e não só do professor) que leva à sustentabilidade desse novo modelo de ecossistema educacional e um não acontece sem o outro. Importante compreender essa relação simbiótica para passar do “ensino” (centrado no professor e na aula) para a “aprendizagem” (focada no estudante e na experiência de aprender-a-aprender). É a RECONFIGURAÇÃO.
professor no sistema-1

Finalmente é hora de interagir, falar outras línguas de outras tribos, compreender como seu próprio ecossistema funciona entre cursos diferentes da mesma IES. O que os une? O que os complementa? Quais são as interfaces? Como podemos unir esforços para planejamentos integrados, no melhor estilo “desafio de garagem à la Silicon Valley“? Essa é a OTIMIZAÇÃO, que atua como um sistema vascular que integra, interage e nutre cada um dos outros órgãos e células desse grande sistema chamado Educação Superior ampliada.

IMG_3923Entendo que é assim que formamos os egressos para a vida.

Fazer provas, trabalhos e atender às notas finais (passou/não passou) não é formar, é diplomar. Formar vai além e é isso que a nova geração busca e não encontra na sala de aula, quando uma geração mais experiente insiste em reproduzir conteúdos, da mesma maneira que foi formada.

Enfim, essa é minha contribuição, meu novo projeto profissional e de vida: compartilhar INSIGHTS DOCENTES para dividir experiências e multiplicar conhecimentos!

Às vezes, não ter solução é a solução. As Leis mudaram e a partir de 2018 não haverá mais solução para postergar a mudança de práticas docentes. Vamos fazer essa transição passo a passo, juntos?

Convido você a visitar, se inscrever, indicar para os amigos e colegas que também atuam na área de formação profissional superior – especialmente na Saúde.

Gestão inteligente do tempo: você pode fazer mais do que imagina

“Pesquisas mostram que funcionários não gostam dos seus trabalhos, não acreditam em seus líderes e não são comprometidos. Se você é um líder – ou deseja ser – deveria se assustar. As empresas do mundo moderno constroem líderes fracassados? Ou você consegue superar esses desafios de liderança e, caso positivo, como? Como se tornar um líder melhor, senão excelente, nesse ambiente?” (Todd Warner, in Harvard Business Review. Traduzido e adaptado pela equipe Tutano)

Vamos conhecer nomes novos para ampliar velhos (e ultrapassados) conceitos?

Falar de gestão inteligente do tempo, liderança, e desafios de mudanças, que fazem parte do cotidiano da vida de um professor – independente da área e nível educacional de atuação, é atual e profundamente necessário. Para isso, escolhi Todd Warner.

Todd Warner é fundador do Like Minds Advisory, uma consultoria para executivos veteranos que trabalha com organizações afim de mudarem o pensamento sobre a execução e o lado humano da performance. Sua linha de abordagem, embora tenha sido concebida para executivos e empresas, se encaixa muito apropriadamente nas modernas discussões sobre a transformação da educação.

ilustra-1
“Líderes lideram aprendizagens. Porque seus líderes são seus professores mais críticos” (Steve Jobs, Apple)

Professores são líderes por excelência, mas paradoxalmente, são muito resistentes quando o assunto é (re)aprender. Durante décadas o conhecimento avançou a passos lentos, permitindo uma mentalidade (mindset) de aprendizagens construídas por tempo prolongado. Durante essa era, que durou da década de 70 até a primeira década desse novo milênio, o melhor profissional era o que “dominava tudo”: muito conteúdo, livros e livros, e o paradigma da obrigatoriedade de muitas horas (mesmo) nos programas de diplomação (graduação e pós-graduação durando quase uma década nas profissões de saúde, por exemplo).

Os tempos são outros, mas ainda é TEMPO. Quantas vezes por dia você pensa (ou diz): “não tenho tempo para fazer mais nada!”. Portanto, é hora de mexer nessa sua agenda-travada e descobrir como a GESTÃO INTELIGENTE do seu tempo pode levá-lo a uma rotina de melhor performance, mesmo que não seja (ainda) de alta performance.

A questão começa na reflexão: VOCÊ ESTÁ COLOCANDO EM AÇÃO TODO SEU POTENCIAL?

ilustra-2
“Aprendizagem por grandes visões. Porque seu pessoal não está pondo em executação seu potencial” (Elon Musk, Tesla)

Fazer uma gestão mais inteligente do seu tempo o ajudará a encontrar os caminhos para alcançar os sonhos., É preciso que você aprenda a desenhar (literalmente) o futuro que deseja, e que aja sobre as raízes dos caminhos (e problemas) para alcançar esses sonhos.

Não entendeu? A super Patti Dobowolski dá uma mãozinha para você, nesse TEDx:

Uma vez que você souber o que é prioridade, para atingir seus sonhos, ficará mais simples e mais fácil gerenciar seu tempo e liderar resultados. Afinal, sucesso não é medido em quantidade de metas, mas na qualidade dos desfechos finais, acessados pelas metas certas!

Se você é professor, esse é um papo sério que deve ter com seus estudantes, durante o processo de aprendizagem. Mostre a eles que seu dia-a-dia também é cheio de distratores e oportunidades, conte sobre as dificuldades em adquirir novos hábitos, discuta a relevância da persistência e da disciplina como meio e forma de atingir os objetivos.

Forme-os para competências: ensine LIDERANÇA e oriente como cada um dos seus estudantes pode colocar em execução o próprio potencial, de forma plena. Ensine-os que o conteúdo não se coloca em ação, no vazio, mas em contextos e decisões.

Liderança é uma competência fundamental para superar a competitividade em um mercado de trabalho que busca profissionais de alta performance. Mãos à obra!

Líderes querem ficar melhores no “aqui e agora”, não serem julgados por um mapa de competências ou serem obrigados a aceitar uma teoria abstrata sobre como a liderança deve aparentar. Se você quer se tornar um ótimo líder, se torne um estudante do seu contexto – entenda o sistema social de sua empresa – e se preocupe com seus hábitos. O desenvolvimento da liderança é mais prática do que teoria. (Todd Warner, in Harvard Business Review. Traduzido e adaptado pela equipe Tutano)

1-desenhe
Você consegue representar-se com suas metas, projetos e sonhos, traçando caminhos reais que levem até eles? O exercício proposto no vídeo da incrível design Patti Dobrowolski mostrou como fazer o lado lógico e inconsciente do seu cérebro abrir espaço para o lado criativo e sonhador, trabalhando em harmonia em busca de soluções para realizar todos aqueles sonhos que temos dentro de nós.

 

Aprender-a-aprender para aprender-a-ensinar

avatar denise-1

Muitos colegas me perguntam como desenvolver planos de ensino que contem com metodologias ágeis e criativas, flexíveis e significadas?

Nessa semana, a Rede Innovares está trabalhando sobre esse assunto, no ensino médio, mostrando os resultados de salas de aula mais dinâmicas, criativas, mas principalmente, mais engajadoras da aprendizagem dos estudantes.

 

Estou fazendo o mesmo no meu espaço de discussão profissional, mas mostrando o trabalho na Educação Superior. Você, professor, é meu convidado para essa série de textos que se inicia hoje, onde trarei o dia-a-dia da minha sala de aula para ajudá-lo a repensar seu plano de ensino e encontrar seus caminhos, nessa trajetória de inovação criativa.

Vamos ao estudo de caso…

Nesse semestre 2016-2, a turma de Licenciatura em Educação Física da UFC, Fortaleza/CE, tem o desafio de desenvolver o olhar crítico sobre a postura e o equilíbrio em escolares. Nesse desafio tudo conta, além da própria aprendizagem da cinesiologia: do desenvolvimento motor por faixas etárias, até os hábitos culturais de calçados, brincadeiras e regionalismos atuantes sobre a função motora.

1- Montar a disciplina ou desenhar uma trilha de aprendizagem?

Nesse novo contexto da Educação, não pensamos mais em “montar aulas”, mas em desenhar trilhas de aprendizagens que contenham uma dinâmica capaz de atender ao coletivo da turma, pelo engajamento criativo e personalizado de cada estudante que a integra.

mindset-3

É passar do planejamento professor-centrado (focado na turma do curso “X”) para o desenho da aprendizagem estudante-centrada (focada no conjunto de estudantes com habilidades “a”, “b”, “c”). Essa, ao meu ver, é a principal diferença para chegar a resultados de excelência na aprendizagem.

E aqui, excelência não se traduz (somente) nas notas, mas no desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes compatíveis com a formação do profissional que se prepara para sustentar-se num mercado de trabalho competitivo, altamente dinâmico e fluido em mudanças e tranformações nas formas estabelecer relações com processos, produtos e serviços.

2- O diagnóstico didático

Aplico metodologias didáticas diagnósticas, em geral, nas duas primeiras aulas de cada semestre. Um momento de aproximação, de contatos, de estabelecimento de regras, mas também, de liberdades!

São dinâmicas de interação e de expressão individual, discussões e inspirações sobre o que seja arquitetura da aprendizagem e engajamento na aprendizagem, compreensão da empatia e do aprender-a-aprender. Essas dinâmicas iniciam laços, estabelecem um novo glossário sobre o qual vamos trabalhar, derruba paredes e tenta construir pontes. É por meio delas que faço a detecção do universo individual de expectativas dos estudantes daquela turma, e isso me dá fundamento para tomar minhas decisões seguintes.

3- O desenho da trilha de aprendizagem, ou o desenho instrucional

Conhecendo cada estudante em particular, sem me descolar do grupo como um todo, é momento de me debruçar na escolha dos melhores elementos para construir uma trilha de aprendizagem coletiva para essa turma, especificamente.

mindset-1

Como o primeiro objetivo é sempre obter o máximo de engajamento da turma no seu processo de aprendizagem, a seleção de modelos, métodos e recursos é essencial. Assim como ter um plano B para cada escolha feita.

Já aconteceu de eu elaborar um plano de aula baseado em rotação de estações de trabalho, e ter problemas com equipamento e wifi em duas das quatro estações de rodízio!

Isso significa que, além de planejar bem, o professor deve ter domínio das muitas formas de atingir a aprendizagem de determinados conteúdos, caso se veja em apuros tecnológicos ou de infra-estrutura, como acontece com certa frequência nas nossas instituições de ensino.

Para essa turma de Licenciatura em Educação Física eu tinha um desafio inicial: havia alguns alunos do bacharelado e de outros cursos (Fisioterapia, Engenharia) que matriculados também. Isso me ampliava o escopo de abordagem e dificultava contextos mais simples. Isso não me incomodou…

Antes, transformei essa dificuldade em aliado: desenhei percursos onde seria possível que cada grupo (licenciaturas e bacharelados, do mesmo curso ou de cursos diferentes) pudessem confluir em interesses de conteúdo (cinesiologia) e divergir em aplicações (usar seus próprios contextos), ao mesmo tempo em que as divergências fossem interativas e complementares em aprendizagem para a vida profissional, entre si.

Algo como uma grande equipe multidisciplinar trabalhando e conhecendo o trabalho do outro, para interagir em interfaces produtivas. Uma excelente oportunidade de simular o mundo real dentro da sala de aula.

2016-10-12-08-26-59

Além do objetivo primário (aprender cinesiologia), tracei um objetivo secundário subliminar para essa turma, ou umplus de aprendizagem, baseado no fato de ser uma turma de Licenciatura: aprender-a-ensinar de formas diferentes, criativas e engajadoras. Em cada modelo e método didático usado, eles passaram pelo papel de estudantes, vivenciando a experiência, e pelo papel de professores, aplicando a experiência.

Tem sido um semestre e tanto!

4- A aplicação do desenho instrucional

Parte do desenho instrucional das minhas turmas (todas, sem exceção) é a expansão da sala de aula por meio de grupos didáticos digitais (GDD). Esse tipo de interação nos mantém conectados ao mundo, derruba as paredes da sala, nos coloca em contato como pares, estimula interações e compartilhamentos de material que amplia a aprendizagem e abre espaços para novas discussões, dentro do mesmo plano de ensino.

mindset-2

Nos GDD é possível conhecer os interesses de cada estudante, personalizar o contato e a troca de informações, trabalhar com tarefas digitais, reforçar atividades em andamento, compartilhar oportunidades no mundo do trabalho, da pesquisa e da formação profissional extra-institucionais.

Assim, fechando o módulo de Cinesiologia do equilíbrio/Membros Inferiores, os resultados começam a aparecer nas atividades de aplicação dos conhecimentos. Foram duas etapas até agora.

Na primeira etapa usei problemas reais como base de raciocínio lógico sobre o conhecimento do movimentos articulares de membros inferiores, para resgatar conhecimentos prévios, então progredi para visualização em 3D de todos os planos, eixos e movimentos de membros inferiores. Substituí os slides estáticos por videos produzidos especialmente para oferecer uma visão dinâmica da cinesiologia, e os intercalei com atividades orgânicas de “faça você mesmo” (Do It Yourself/DIY). Aprender fazendo sempre foi o melhor método de aprender, não de ensinar. Por isso, planejamento é o segredo desse momento.

organico-pl-eix-1

Na segunda etapa, que se inicia agora, inverti a ordem dos eventos. Dos conhecimentos adquiridos, eles vão em busca de soluções para uma situação real: a postura de um colega de turma. Grupos se formaram e cada grupo escolheu um colega para estudar a pisada e a organização motora dos membros inferiores, agora com bases nos conhecimentos de ações musculares já estudadas.

2016-10-05-17-05-51

Essa segunda etapa parte da sala de aula invertida (flipped classroom) e trabalha com soluções: cada equipe deve analisar os achados, reunir a teoria pertinente, e propor soluções criativas e factíveis.

Para propor soluções, eles devem organizar todos os achados e apresentar em um pitch de 5 minutos com suas soluções, para o restante da turma. Cada grupo tem um mapa de avaliação para pontuar os colegas, e todos passarão pela apresentação. Eles tem como missão conquistar, convencer e encantar os colegas.

As notas dos pares comporão, ponderalmente, com as minhas notas, para chegar à nota do bimestre e, pela primeira vez no curso (eles estão no terceiro ano) eles recebem essa responsabilidade: avaliar.

Nesse momento, a aprendizagem subliminar ou secundária, é a de dividir as responsabilidades do processo de aprendizagem e de avaliação. Aqui, eles serão um pouco daquilo para o que se preparam: ser professor. Essa é uma competência que vai além do conhecimento, posto que necessita de atitudes, habilidades e responsabilidade para completar seu percurso. Um desafio e tanto para eles, um planejamento e tanto para mim, no momento de equacionar os mapas de avaliação.

Ao final dessa etapa do desenho instrucional da disciplina de Cinesiologia para o Curso de Educação Física, teremos completado um percurso que variou das atividades orgânicas à tecnologia 3D, da interação em sala de aula física à expansão digital da sala de aula em GDD, do exercício de novas metodologias para o aprender-a-aprender, como estudantes, ao aprender-a-ensinar, como professores.

5- Como reunir conhecimentos didáticos para transformar a sala de aula?

Essa recuperação de trajetos é algo que faço sempre ao meio ou ao final do semestre letivo para compartilhar com colegas professores que igualmente desejam transformar suas salas de aulas, mas ainda não encontraram por onde começar.

Embora haja teorias aos montes, infográficos aos lotes, e ebooks aos milhares na internet, a lacuna entre a teoria e o “como fazer lá na minha sala de aula?” ainda é importante e requer, da parte de quem se interessa pela mudança, o famoso “mãos na massa” (maker movement).

Ouvir/ler relatos ajudam a encontrar suas próprias direções, eu concordo (aliás, é até por isso que escrevo), mas não se pode negligenciar a necessidade de buscar por capacitações e formações competentes e sólidas, para colocar as novas práticas em ação com segurança e responsabilidade.

É possível seguir uma receita, sim, mas ela nunca será tão boa em resultados se você não aprender como lidar com os detalhes do processo. Com numa receita de bolo, o ponto das claras em neve, a temperatura do processo de cocção e o tipo de ingrediente usado interferem, sim, diretamente na excelência dos resultados.

Nas metodologias criativas e engajadoras, é preciso mudar seu mindset (professor) antes de aplicar qualquer tipo de modelo inovador de aprendizagem, que vem com a mudança consequente do mindset do estudante. O motivo é simples e quase óbvio: velhos mapas não levam a novos mundos. Seu mapa mental está formado e estruturado para um perfil de pensamento, e substituí-lo não é tarefa simples e requer incentivo, conhecimento, (re)treinamento, diálogos, argumentações e, finalmente, (re)planejamento.

Mudanças de mindset (para professores e estudantes) são processos, e não produtos. São processos espelho: um estudante que não percebe o engajamento do professor em transformar as aulas, também não se sentirá compelido a se engajar, para transformar seu papel na aprendizagem. Esse é todo o segredo do sucesso: mudanças de dentro para fora.

Hoje, meus estudantes estão trabalhando na aplicação dos conhecimentos para conquistar, convencer e encantar os colegas. Estão comprometidos no processo de aprendizagem e de avaliação porque deverão usar o melhor de si para participar ativamente desse processo. E eu acompanho o processo, mediando-o e reorientando-o sempre que necessário, em tempo real.

Abrir mão do controle total do destino dos estudantes, na sala e nas notas, requer monitoramento contínuo, segurança, responsabilidade e desapego, por parte do professor. O futuro da aprendizagem aponta para novos horizontes pautados nessas virtudes, e o futuro da carreira docente sofrerá o impacto direto dessas mudanças.

Cabe ao professor preparar-se para estar seguro e competente, à frente do processo de aprendizagem, porque só deixa de aprender quem já deixou de viver.

WWDC Apple 2016: processo acima do produto

thi wwdc2016

Um dos meus filhos viaja para a Apple Special Event WWDC 2016 e vai daí que eu resolvo assistir, pelo link, a conferência magna que aconteceu hoje. Afinal, aprendi com meus filhos (desenvolvedores Apple) que, muito além dos novos produtos, o mais importante de um desenvolvedor Apple é seu mindset sempre à frente. É a natureza pró-ativa e protagonista de pensar e desenvolver muito além do produto: é pensar num novo modelo de oferecer o processo, a experiência.

A experiência de compartilhar à distância uma grande conferência como essa sobre inovação, tecnologias, mudanças, e novos produtos que afetam ao mundo todo foi impressionante. Mas, ainda mais impressionante não foram os novos produtos apresentados. Foi perceber o processo que guia essa empresa e como ela trata o processo de liderança e criatividade que sustenta no mercado de tecnologias.

Aprender com as entrelinhas dessa riquíssima apresentação do primeiro dia é o que me deu a inquietação de compartilhar. Cá estamos, você, leitor, e eu. Peço que acompanhe meu raciocínio (e se puder, assista também às novidades, com outros olhos). Vamos lá…

1- Compartilhar a trajetória da empresa para um desenvolvimento colaborativo ao redor do mundo

wwdc-1

É característica da Apple os encontros mundiais com seus desenvolvedores para apresentar as novidades. Dividir para multiplicar é um mindset que transformou-se em um dos principais comportamentos de empresas e profissionais de sucesso. E daí a relevância da máxima que transformou a empresa e seus colaboradores em líderes natos: “não vendemos um produto, oferecemos a experiência”.

2- Ousar o sonho maior de todos, o vôo mais alto, preparar-se com qualidade para um auditório gigantesco lotado

wwdc-2

É de encher os olhos quando a câmera transita pelo auditório. Na tela desproporcionalmente gigantesca (em relação ao apresentador), o reflexo da grandeza almejada e alcançada pelo trabalho sério, ano a ano. Pela capacidade de estar sempre um passo à frente, a cada novo produto e nova atualização. A simplicidade e criatividade das composições de logos, imagens, símbolos e mensagens a serem transmitidas. Cada minuto contém uma aprendizagem empreendedora, para olhos que sabem ver.

A cada passagem das câmeras de transmissão pelo auditório, pode-se perceber que há muitos mais empreendedores e afiliados da empresa do que se imaginava. São todos os continentes representados e, embora a faixa etária seja predominantemente da Geração Y e Z, há muitos representantes da Geração X, ousados e presentes.

No palco, o comando da Geração Boomers, que harmoniosamente se alternam com todas as novas gerações, que os sucederão breve. Uma grande lição de cooperação mútua, respeito, coletividade, cocriação e empreendedorismo a ser aprendida, muito diferente do que vemos sendo propagado por aí, nas mídias sociais, por empreendedores de palco. É… Quem é grande tem grandes comportamentos. Só isso.

3- Swift: a linguagem que fez a Apple imbatível nos últimos tempos

wwdc-3

Lembro quando a Apple lançou a Swift, em 2014. Meus filhos estavam no Brasil, acompanhando o lançamento das novidades daquele ano, e eu só ouvi “lá se vão meus próximos finais de semana, até aprender e dar conta disso!”. Era o início de uma boa revolução no mundo da linguagem de programação.

Swift é uma linguagem de programação consistente e intuitiva, desenvolvida pela Apple para a criação de apps para iOS, Mac, Apple TV e Apple Watch. Ela foi criada para dar ainda mais liberdade para os desenvolvedores. Uma linguagem fácil de usar e em código aberto, para que qualquer pessoa com uma boa ideia consiga fazer coisas surpreendentes. E fizeram! Como fizeram…

Os desenvolvedores não foram os únicos que perceberam o potencial da linguagem Swift. Algumas das melhores universidades e instituições acadêmicas estão ensinando Swift nos cursos de programação em computador e oferecendo cursos gratuitos no iTunes U. Nunca foi tão fácil passar das noções básicas de código à programação profissional.

Hoje foi apresentada a Swift 3: The powerful programming language that is also easy to learn. Swift 3 is a thorough refinement of the language and the API conventions for the frameworks you use every day. These improvements make the code you write even more natural, while ensuring your code is much more consistent moving forward. For example, select Foundation types such as the new Date type are easier to use and are much faster than previous releases, and the Calendar type uses enums to feel more at home within Swift.”

Os conceitos chave, desde 2014 com a Swift na primeira versão, reforçam o que tem movido a empresa: conquiste colaboradores, abra espaço para que todos compartilhem sua criatividade e suas ideias, não filtre nada, e você terá conquistado o usuário pela experiência de cocriação. O preço deixou de ser do produto, e passou ao valor do processo, à experiência. E todos sabem que você pode até comparar produtos, mas experiências são únicas e não têm preço, têm valor. Ponto pra maçã!

4- Swift Playgrounds e os desenvolvedores do futuro

wwdc-4

Mas a meu ver, o grande lançamento mesmo não foi nem a Swift 3, nem tampouco a versão Swift Playgrounds enquanto produto. Foi a visão da Apple em considerar que a mudança de geração em seus desenvolvedores traz em seu bojo uma mudança de visão do mundo, da tecnologia, do relacionamento com a tecnologia e, finalmente, a mudança da relação entre tecnologia e educação.

wwdc-6

A visão de futuro da Apple, implícita no discurso de hoje, mostra que os novos tempos chegaram. Brinco sempre em minhas aulas, cursos e palestras, que os Millenium nasceram chorando em 140 caracteres. Hoje ficou claro que, em muito pouco tempo, haverá uma outra linguagem de expressão de ideias, trabalhos, conceitos e criatividade: a linguagem de programação, a lógica da programação já está encantando e desenvolvendo os futuros desenvolvedores da Apple. Muitos deles lá, no auditório, em largos sorrisos e brilho nos olhos. Fascinante de ver essa transformação acontecendo…

wwdc-8

Muito mais que uma empresa de tecnologias, a Apple vem se transformando em uma alavanca de mudanças e de transformações, que cresce exponencialmente a cada geração. Hoje entendi o porquê. O merecido porquê.

Assistindo ao vídeo você também entenderá que o projeto do Swift Playgrounds visa ganhar espaço nas escolas do mundo, oferecendo a aprendizagem de programação de forma intuitiva, praticamente um jogo que ensina lógica, sequências, criação, transformação.

wwdc-9

As crianças de amanhã, assim como os Millenium hoje, terão trilhas de raciocínio muito mais amplificadas que as minhas, que as nossas. E isso se refletirá em todos os níveis de organização da sociedade, em todas as áreas do conhecimento. Mas pensando em educação superior, que é a minha praia, é passado do momento de promover disrupções importantes em salas de aula.

5- Lições de futurismo e empreendedorismo a serem aprendidas

O modelo professor-slide power-point não poderia estar mais surrado, desagastado e superado, embora a grande maioria dos professores do ensino superior ainda se agarre a ele. Aliás, escrevi sobre isso semana passada (dá uma olhada lá!).

Sou da opinião que, num naufrágio você tem duas opções: ou aprender a dar braçadas, que se transformarão em nado para manter-se na superfície, ou agarra-se a um pedaço-de-qualquer-coisa até que tudo à sua volta tenha mudado de lugar e não reste outra alternativa senão sair nadando também… Só que atrasado e sem companhias. Aliás há uma terceira opção: afundar feito pedra. E esse comportamento de ensinar-professor-centrado já está superado pelo novo comportamento aprendizagem-estudante-centrada. Percebeu a diferença? Ensino é diferente de aprendizagem, em nomenclatura e atitude. Passei do ensino de conteúdos à condução da aprendizagem dos conhecimentos muito antes da palavra empreendedorismo constar como verbete em dicionários. E isso vem de dentro… Ainda bem! Porque agora, tem que vir de fora, como necessidade daqueles que querem manter-se atuantes na carreira do magistério superior. Aliás, do magistério como um todo.

A Apple suscitou muitas reflexões em mim em pouco mavatar euenos de duas horas de apresentações. Mas veja, caro colega leitor, não foram os PRODUTOS que me instigaram as reflexões, e sim, o PROCESSO que a empresa adotou como mindset de negócio. É esse mindset que eles gerenciam tão bem, de forma tão limpa quanto suas logos e apresentações, e que apontam para os caminhos de mercado de trabalho, comportamentos, habilidades e atitudes que os profissionais do futuro (muito próximo) enfrentarão e terão de desenvolver. E isso sim, é minha praia, é de meu interesse, pois se reflete em como devo preparar meus estudantes de hoje, que levarão quatros longos anos de formação para chegar a um mercado de trabalho crescendo e evoluindo anualmente em progressão geométrica.

Não há mais tempo nem espaço para procrastinar a mudança de atitudes nas salas de aulas do ensino superior. O que vínhamos apontando como tendências nos últimos dois anos, acabou por se tornar fato inexorável. Pronto, aconteceu. E agora? Agora, não sei o que você vai fazer, mas eu já estou fazendo: preparando meus estudantes com metodologias ágeis e criativas, compartilhando o processo de aprendizagem, trabalhando com planejamento colaborativo de ensino-aprendizagem. Isso os fará sujeitos mais preparados, ao menos enquanto estão ao alcance do meu poder de persuasão de passar de “a-luno” (sem luz) para protagonizar o “estudante” (aquele que estuda).

Como fazer isso? Bom… Como a Apple, dou uma dica, mas deixo a experiência para uma nova apresentação!

wwdc-10

 

 

 

Modelos híbridos na educação

300be442b31cb8b390b227457bbddc9b“Deve-se ensinar a pensar e a estudar. Mas isso não se faz no vazio. É preciso adquirir bases e fundamentos que nos permitam pensar e criar. Sabemos que o estímulo e a exigência desde a mais tenra idade criam bases e rotinas (de leitura, de cálculo, de pensamento) que nos libertam para outras aprendizagens. Dito de outro modo: quando as rotinas básicas são feitas ‘automaticamente’, a nossa atenção e energia podem concentrar-se noutras tarefas e atividades.” (António Nóvoa, 2016)

Sair da zona de conforto parece ser o mais difícil obstáculo a ser transposto pelas propostas híbridas na educação, uma vez que movimenta profundamente todos os lados do sistema. Embora a educação sempre tenha sido misturada, híbrida em alcançar diversas fontes de conhecimento e reuni-las em torno de uma aprendizagem, com a conectividade esse processo é muito mais perceptível, amplo e profundo. O conhecimento é um ecossistema mais aberto e criativo, onde pode-se aprender de inúmeras formas, em todos os momentos, e em múltiplos espaços, desde que esse novo movimento de aprender seja estimulado, orientado e monitorado, segundo um objetivo, uma meta de aprendizagem a ser atingida (BACICH et al., 2015).

Híbrido é um conceito rico, apropriado e complicado, ao mesmo tempo. Tudo pode ser misturado, combinado e, com os mesmo ingredientes, pode-se preparar diversas receitas, cada uma delas com sabores e aromas diferentes (BACICH et al., 2015). A complexidade está em integrar o que vale a pena aprender, com que finalidade se aprende, e em quais contextos isso se dá. Apesar desses conceitos serem praticamente inatos quando se fala de educação, a prática dessa moderna hibridização está longe de acontecer. Muitos gestores, professores e estudantes são híbridos, no sentido de contraditórios, pela formação desbalanceada: possuem muito mais competências cognitivas que socioemocionais, e ainda, possuem muitas dificuldades em saber viver, conviver e aprender juntos, em todos os sentidos do processo de aprendizagem.

Tomando a educação superior como linha de base para essa reflexão sobre inovação disruptiva e a hibridização como caminho, percebe-se que é justamente nela, onde o conhecimento se faz por meio da transformação mediada por professores e pesquisadores, que os processos de ensinar e de aprender profissões ainda estão muito distantes da famosa expressão desta última década: “think outside the box”.

“Sair da caixa” parece ser o mais difícil paradigma a ser superado pelos educadores e pela educação, e esse movimento começa, inevitavelmente, pela mudança dos papéis em sala, tanto do professor quanto do estudante. É preciso compreender que a ação simples e direta de entrega do conhecimento foi superada, e está esgotada enquanto modelo.

Nessa nova ordem global de comportamentos e de pensamentos, principal atuação do professor passou a ser o mediador na significação e compartilhamento de experiências (NÓVOA, 2016). O professor atual deve estar vocacionado para atuar enzimaticamente, convertendo informações em conhecimento aplicado e este, por sua vez, deve ser convertido em significado pelos estudantes, cada um segundo seus contextos e experiências de vida, mas todos a partir dos nexos fundantes estabelecido pelas Diretrizes Curriculares Nacionais.

7a21a3e0f0e6ee89ce80e8cc266a6907Se “sair da caixa” para educadores pode significar, em uma interpretação de sentido raso, o abrir mão de um suposto poder total sobre o conhecimento, para passar a dividir uma parte do poder sobre a aprendizagem com seus estudantes, esse movimento não parece mais fácil para os próprios estudantes, quando se trata de colocar na prática contextos inovadores de atitudes e comportamentos, quando há avaliações e notas em jogo.

Quando se afirma que uma nova máxima educacional deveria convergir para adaptação do conhecimento, gerando soluções, e não para o simples armazenamento das informações, o protagonismo do estudante torna-se o pilar de sustentação de todo o processo. Mas esse pilar exige-lhe mudança de comportamento e da forma de utilização de seu tempo durante o período de formação profissional, aqui tratada no ensino superior.

Para os estudantes, ainda em sua maioria, propostas híbridas de aprendizagem, como os modelos de rotação por estações, laboratórios rotacionais, e salas de aula invertidas – modelos metodológicos das inovações educacionais híbridas – soam antes como uma delegação do papel do ensinar pelo professor. É certo que alguns professores colaboraram fortemente, ao longo da história dos métodos e estratégias pedagógicas, para a malversação de modelos não-professor-centrado, mas é igualmente lógico que o estudante, no atual modelo de ensino[1], possui uma zona de conforto onde não são necessários maiores movimentos para cumprir aproveitamento de conteúdos por meio de notas e presenças, dentro de uma matriz curricular generalista mínima.

E mais, todos os esforços do atual modelo de ensino – diferente do que seria em um modelo educacional – estão concentrados em oferecer e consumir mínimos: matriz curricular mínima, avaliações e notas mínimas, frequência mínima, participação mínima.

IMG_7779

Para modelos educacionais engajadores e ativos é preciso que o sistema onde o Curso Superior está inserido tenha um funcionamento diferente do padrão atual. Aliás, um padrão construído há mais de 50 anos atrás, que está ultrapassado.

Mas, se cada um de nós foi formado por esse sistema como podemos fazer um sistema diferente? Eu também pensava nesse problema há alguns anos e, com o passar da prática de sala de aula e de gestão do conhecimento em cargos e consultorias  administrativas, fui incorporando soluções que reverberaram positivamente em PPCs conteudistas. Um passo anterior aos cursos completamente planejados por metodologias ativas.

No curso ECOSSISTEMA EDUCACIONAL SUSTENTÁVEL eu ensino o passo a passo desse novo mapa da Gestão do Conhecimento, que é o novo perfil de prática docente para o século XXI. Um curso prático, 100% online, simples, direto, e que vai começar a fazer você perceber o Ensino Superior de um novo prisma. Não perca tempo e faça logo esse curso porque todos os outros novos cursos para estratégias inovadoras em planos de ensino e metodologias ativas em planos de aula são uma consequência dessa mudança de mindset!

____________________

[1] Note-se que o texto sempre faz uma diferenciação entre o que seja modelo de ensino e modelo de aprendizagem, sendo que o primeiro se relaciona com a educação professor-centrada e conteudista, enquanto o segundo parte do conceito do hibridismo como inovação sustentada, estudante-centrada, e rumo à mudança de mentalidade sobre construção e significação do conhecimento pelo estudante.

 

 

 

Galeria

O empreender como uma questão no Ensino Superior

 “Como diz Michel Serres, somos contemporâneos da terceira grande revolução na história da humanidade. A primeira, foi a escrita, há 6 mil anos. A segunda, foi o livro impresso, há 500 anos. A terceira é hoje, a revolução digital. As tecnologias fazem parte do dia a dia das novas gerações. Claro que têm de ser integradas na escola e nos processos de aprendizagem e que têm de ser objecto de uma reflexão profunda sobre a forma como devem ser utilizadas por professores e alunos.”

                                                                   (António Nóvoa, 2016)

 

Por natureza da definição, os espaços educacionais estão vocacionados para o empreendedorismo e para o intraempreendedorismo. A consequência natural daquele que se empodera, na educação, por meio do uso orientado da tecnologia e da antecipação de competências, habilidades e atitudes de vanguarda no mercado de trabalho, é empreender. Mas ao contrário da definição, é exatamente nesse meio que o empreendedorismo carece de fôlego para crescer.

Martins (2010) estudou as impressões de 257 estudantes quando perguntados como os professores empreendedores ministraram suas aulas. Nessa pesquisa, os aspectos estratégicos relevantes elencados foram: qualidade de elaboração, variação de cenários, gestão participativa, dialogada e compartilhada da construção do conhecimento, conexão imediata entre teoria-prática nas simulações, e a coerência entre o conteúdo selecionado e a prática diária do exercício profissional. Os estudantes elencaram também os aspectos de personalidade dos professores, e destacaram: empatia, criatividade, simplicidade, domínio do conhecimento e sobre os caminhos onde se buscar o conhecimento mais refinado, paixão pela área.

200H “[…sucesso pedagógico…] depende também da capacidade de expressar competência intelectual, de mostrar que conhecemos de forma pessoal determinadas áreas do saber, que as relacionamos com os interesses dos alunos, que podemos aproximar a teoria da prática e a vivência da reflexão.” (Edgard Moran, 2007)

 

Meu trabalho com análise cinemática do movimento humano, e sua intensa interface com tecnologias mediadas por informatização frequentemente me levam a interfaces com diferentes profissões e áreas do saber, como Educação Física, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Engenharia Biomédica e até Direito, se considerar as vezes em que fui chamada para peritar funcionalidade (e quantificar sua perda) em litígios judiciais trabalhistas, principalmente. Por isso, lancei meu olhar sobre como Fisioterapia e Educação Física para entender como e se essas áreas estão engajadas em formar profissionais tão bons empreendedores para enfrentar esse mercado competitivo, quanto bons técnicos, para atuar de forma competente.

Na busca pelos pensamentos contemporâneos e das expectativas sobre aprendizagem e inovação, daqueles que estão nos bancos da academia e aqueles que recentemente ganharam o mercado de trabalho, encontram-se poucos estudos que tratam do empreendedorismo, particularmente nas áreas de Fisioterapia e de Educação Física. E aqueles que o fazem, imprimem-lhe a natureza de um pensar ilustrativo de simulação, ou ainda, apenas como um caminho de negócio profissional.

Na Fisioterapia, relatos de práticas empreendedoras são escassos, e os poucos existentes relacionam-se ao empreendedorismo social e à prática de hábitos saudáveis de vida como protagonismo de uma melhor qualidade de vida (BACKES et al., 2010), ou à gamificação como um estímulo ao empreendimento e protagonismo ao próprio aprendizado sobre conteúdos disciplinares isolados (ANDRADE et al., 2015).

Embora Pardini et al. (2008) tenha estudado competências empreendedoras e o sistema de relações sociais na dinâmica dos construtos da decisão de empreender nos serviços de Fisioterapia, sua abordagem não diferiu da concepção de empreendedor que remete ao pensamento de que as competências empreendedoras e os sistemas de relações sociais implicam na implementação de um negócio. Compensatoriamente, o estudo apontou sobre o comportamento de correr riscos, vislumbrar oportunidades, antecipar-se em relação aos demais, como consolidação de ações empreendedoras específicas, e ainda, a utilização das fontes de informações preliminares e da rede de relações sociais na estruturação de suas atividades.

Na Educação Física, existe muito pouco sobre o que se pautar acerca do histórico do empreender como conceito e como prática. Até o final da primeira década deste novo século, a perspectiva do empreender na Educação Física recebia duras críticas posto que encontrava-se equivocadamente atrelada ao conceito de competências para empregabilidade, e a uma atitude de consciência, alienada e reprovável, de adaptação aos ditames do mercado capitalista, numa lógica do “cada um por si” ou “salve-se quem puder” (DIAS, 2010). Só recentemente os conceitos foram se ajustando mais para o que seja realmente a atitude empreendedora, como as novas formas de aprendizado e de relacionamento, servindo de base para o ensino superior (NASCIMENTO & CUNHA, 2012), e como uma competência desejável, até mesmo desde os bancos do ensino fundamental (BORGES, 2014).

Por outro lado, os últimos anos multiplicaram toda uma parcela de entidades e empresas dedicadas ao empreendedorismo e seu estímulo enquanto atitude perante a vida profissional. Emergiram novas formas de atuar no mercado perante esse conceito, gerando carreiras como de mentorias, coaching, consultorias empreendedoras e, mesmo os personal trainers, especialidade na Educação Física, refletem a mais clara aplicação da expressão do empreender com sucesso. Organizações se dedicaram a acompanhar o mercado global e medir as expectativas no âmbito da educação, especialmente relacionadas ao empreendedorismo educacional, com vistas a discutir propostas e soluções viáveis, voltadas para esses novos nichos de atuação. Uma delas é a Endeavor Brasil[1].

  “A Endeavor Brasil que tem por missão multiplicar o número de empreendedores de alto crescimento e criar um ambiente de negócios melhor para o Brasil. Por isso, selecionamos e apoiamos os melhores empreendedores, compartilhamos suas histórias e aprendizados, e promovemos estudos para entender e direcionar o ecossistema empreendedor no país.”

778a7027f8a5ccd2c3d3acb8bc2eda41

A Endeavor Brasil e o SEBRAE[2] entrevistaram professores e estudantes sobre empreendedorismo nas universidades, em cinco capitais brasileiras. Em 2014, seiscentos professores e cinco mil estudantes universitários responderam à entrevista estruturada, sendo que quatrocentos estudantes já haviam participado da mesma pesquisa, em 2012, e serviram de base para conclusões em seguimento de conceitos, ou coorte. Os principais pontos levantados são apresentados a seguir, como reflexões que amparam tanto a concepção desta proposta como a relevância do momento de sua apresentação, enquanto pesquisa de inovação tecnológica na área da educação, tendo a análise do movimento humano como eixo condutor para a proposição de atitudes diferenciadas, de professores e de estudantes, voltada para o desenvolvimento de uma aprendizagem empreendedora e protagonista.

Note-se que a pesquisa teve foco nos cursos da área de negócios e de tecnologias, e teve dois tipos de coletas: uma coleta quantitativa, sobre números relacionados ao empreender, e outra qualitativa, sobre o conhecimento do que seja o empreender, em si.

Dos seiscentos professores brasileiros que responderam à pesquisa, apenas 6,1% declararam não se interessar ou não terem tempo para empreender, enquanto todo o restante já foi, é ou quer ser empreendedor. Por outro lado, os resultados apontaram uma relação direta entre titulação e perda do interesse no empreendedorismo, uma vez que quanto maior a titulação, foi constatada uma maior perda de interesse no empreender. Cerca de 39% dos professores de IES públicas indicaram que os temas de empreendedorismo estão no núcleo de informação de seus cursos, contra 12% dessa alocação nas IES particulares, onde 49% respondeu que tais temáticas são diretamente tratadas nas escolas de negócios. Mesmo nas IES públicas, o desafio ainda é o foco que se dá ao empreendedorismo (ENDEAVOR & SEBRAE, 2014a).

O estímulo à cultura empreendedora é o ponto mais forte das IES pri­vadas e públicas, com mais de 80% de cobertura, segundo os professores. Por outro lado, os assuntos menos co­bertos nas disciplinas de empreende­dorismo estão ligados a conteúdos que falam sobre o fracasso de empreende­dores nas instituições, com pouco mais de 50% de cobertura. O ponto fraco sobre empreender desde a faculdade, segundo os professores, ainda é a falta de apoio: cerca de seis em cada dez IES públicas pesquisadas não oferecem mentorias, redes de contato e sistemas de plantão para dúvidas na execução de projetos empreendedores, enquanto que nas IES particulares, esse número é de quatro em cada dez (ENDEAVOR & SEBRAE, 2014a).

Foram cinco mil estudantes respondendo à pesquisa em 2014, que estudavam em cerca de setenta IES públicas e particulares, sendo que quatrocentos deles já haviam participado da edição anterior, em 2012. Isso permitiu uma avaliação da mudança de expectativas, comportamentos e atitudes diante dos elementos básicos do empreender, como confiança na resolução de problemas, influência de estágios e programas trainees na capacidade de vislumbrar o mundo do trabalho, e busca pela inovação (ENDEAVOR & SEBRAE, 2014b).

No estudo comparativo, foi possível destacar alguns pontos em comum, como: (1) a autoconfiança para solução de problemas ser proporcional ao esforço dedicado é 5,7% maior em estudantes que já cursaram alguma disciplina ou programa de empreendedorismo; (2) essa confiança é quantitativamente menos numerosa em mulheres (52,7%) que em homens (63,6%), mesmo já tendo cursado conteúdos e programas de empreendedorismo; (3) embora o universitário seja, via de regra, um cidadão maior de idade, a opinião dos pais é um forte influenciador na construção de carreira e, nessa pesquisa, 79,1% dos pais dos potenciais empreendedores tem uma visão positiva ou muito positiva sobre a decisão dos filhos em empreender; (3) o foco de quem deseja empreender está relacionado com o potencial de crescimento inovador de uma determinada área (47,6% das respostas), num prazo médio de cinco anos (ENDEAVOR & SEBRAE, 2014a).

A diferença entre as duas pesquisas (2012-2014) esteve, justamente, no aumento do índice de empreendedores entre os universitários. Em 2012 havia mais empreendedores entre os homens (14,7%) que entre as mulheres (8,1%), e os estudantes com maior renda possuíam mais negócios (15,9%) que aqueles com renda intermediária (12%) e de mais baixa renda (8,8%). No total, em 2012 8,1% respondeu que já eram empreendedores, ao passo que em 2014 esse número subiu para 11,2% (ENDEAVOR & SEBRAE, 2014b).

Há pontos interessantes na comparação das respostas para os quatrocentos estudantes que fizeram parte da coorte, desde 2012. Entre eles, destacam-se: (1) apenas 40% dos que empreendem buscam as IES como fonte de conhecimento ou de modelos, no momento de empreender; (2) o número de potenciais empreendedores dedicados à pesquisa de novos modelos de oportunidades cresceu de 24,4% para 39,7%; (3) enquanto em 2012, mais da metade dos novos empreendedores tinham os pais como sócios, em 2014 somente 23% ainda os mantinham na sociedade, alegando que o apoio foi fundamental, e a dedicação levou à independência; (4) aqueles que concluíram a graduação relataram que as atividades empreendedoras fora do ambiente da sala de aula foram de maior valor formativo do que o tradicional ensino professor-sala de aula (ENDEAVOR & SEBRAE, 2014c).

No aspecto qualitativo, confirmou-se que: (1) havia uma clara concepção de que o empreender não estava ligado, necessariamente, a abrir um negócio; (2) a mídia só aponta os casos de sucesso, e que os cursos deveriam trabalhar mais os casos de insucesso, como aprendizagem válida; (3) existia um sentimento de falta de preparo dos estudantes, que foi citado durante todo o estudo, onde cobraram das suas IES aulas, programas ou estudos práticos que mostrem mais a realidade dos empreendedores, muito mais do que as teorias sobre ferramentas de gestão (ENDEAVOR & SEBRAE, 2014d).

a0c6cdd73f5c3a5d8d9965e1db3248e2Ainda no estudo qualitativo, os professores manifestaram seu desejo em melhorar suas aulas com experiências de empreendedorismo, mesmo quando este não é o tema central do conteúdo. Os estudantes, por sua vez, afirmaram que não é a disciplina que gera condições favoráveis para aprender a empreender, mas sim, o ambiente estimulador, como redes de contatos, desafios, empresas juniores.

Mais que isso, os estudantes reconheceram nas atividades de pesquisa, nas universidades, um veio empreendedor importante, quando ela tem a capacidade de causar impacto social em tempo real e desenvolver soluções de problemas.

Por fim, vale o destaque para uma percepção entre os estudantes: um programa de empreendedorismo deveria iniciar pela criatividade para a geração de novas ideias e pontos de vista, não pelos instrumentos de gestão dessas novas ideias, porque ideias e inovação, novos pontos de vista e criatividade, são as maiores dificuldade enfrentadas para quem quer começar algo diferente.

 

 

______

[1] URL: www.endeavor.org.br
[2] Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.

MGAP e a peritagem curricular

Há alguns anos me dedico às questões de gestão pedagógica do ensino superior e, entre elas, a desconfiguração comum que uma matriz curricular sofre, pela mutação homeopática dos ementários que dão vida às unidades curriculares que a compõem.

Para quem é do “chão de fábrica” do ensino – ou seja, está na sala de aula e nas reuniões de colegiado para pensar o formar dos egressos, no dia a dia – isso não vai soar como novidade. Afinal, do mesmo modo que o hábito faz o monge, o professor vai moldando a ementa à sua natureza e principalmente, à sua zona de conforto.

Não que esse seja, de todo, um comportamento reprovável, mas a verdade é que poucos estão atentos para os reflexos em cascata que isso é capaz de impactar num Projeto Pedagógico de Curso (PPC). Como uma insuficiência renal ou uma hipertensão arterial, o dano corre silencioso e invisível, por anos a fio.

Até o dia em que um recredenciamento ou a necessidade de uma atualização ou mudança curricular (Diretrizes Curriculares Nacionais estão todas sendo atualizadas neste 2016, atenção!) exige um olhar mais analítico sobre o quê efetivamente está sendo oferecido em sala de aula, em termos de formação curricular. E muitas vezes (na maioria delas, aliás) os resultados são desoladores.

Uma proposta curricular que era clara, com propósitos e objetivos alinhados, de repente (mas não tão de repente assim) encontra-se desfigurada pelo turnover dos professores que passaram e por suas respectivas ementas que foram sendo sutilmente modificadas, “melhorando” a um interesse próprio. Esse é o fenômeno imperceptível mais comum de ser encontrado, e tais mudanças e interesses não são providos de má fé: ao contrário, cada professor pensa sempre em dar o seu melhor.

O problema é que nem sempre “o seu melhor” é aquilo que o PPC entende como melhor no conjunto tecido pelas unidades curriculares, como foram planejadas. Então, tem início um processo onde uma cadeia de conhecimentos sequenciada e planejada fica corrompida e interrompida, perdendo sua lógica inicial.

Tendo em mãos, por inúmeras vezes, esse tipo de acontecimento, meu cérebro (que adora minimizar seu próprio trabalho e tem uma séria mania de buscar por soluções mais permanentes e flexíveis, quanto possível) sempre se incomodava com o processo quase Neantherdal das infindáveis reuniões de discussão para analisar danos e medidas paliativas.

Medidas paliativas não curam, portanto o retrabalho era consequência iminente (e indesejada para esse meu cérebro metido a folgado), embora seja uma constante entre professores negar que tais “pequenas alterações” atinjam de forma substancial o espírito de um PPC. Mas atingem, e da mesma maneira que, em um supermercado, trocos de dez centavos forem sendo negligenciados; no montante de um mês, ou de um ano, o buraco é mais que significativo!

Portanto aceite a realidade e só então conseguirá mudá-la. Foi o que fiz.

10411866_947462095300803_3032084027919842840_nJá era momento de estudar um pouco mais para pensar em uma instrumentação (gosto dessa área de desenvolvimento de instrumentações inovadoras e ágeis!) para acabar com essa novela da reabilitação dos PPCs por meio de consertos dos ementários.

Muitos temas transversais se repetiam, consumindo horas preciosas de encontros (ou aulas) onde se poderiam trabalhar competências, habilidades e atitudes novas e inovadoras. Mas havia mais: nenhum PPC, até onde eu havia tido conhecimento, efetivamente alinhava seus conteúdos claramente com os perfis curriculares demandados pelas DCN.

A pergunta “qual(is) unidade(s) curricular(es) contribui(em), com quanto, para exatamente, qual(is) perfil(s)” não tinha resposta clara e quantitativa. Havia sempre um discurso de que o conjunto do conhecimento, ao final do curso, atendia aos perfis, porém, com a tecnologia correndo solta pelo mundo do trabalho, com os conceitos e conhecimentos se renovando e mudando a cada minuto, como assegurar que estamos formando profissionais que atendam a todos os perfis previstos, se as unidades curriculares são tanto estáticas quanto personalizadas?

A resposta só veio em 2012, dois anos depois que comecei a fazer parte da equipe de elaboradores do Banco Nacional de Itens do Exame Nacional de Desempenho Estudantil (BNI-ENADE). Após os dois primeiros anos de estudos para atender às demandas e regulamentações da elaboração de itens, passei a revisora e então, a partir de um padrão simples, que reverti, surgiu a instrumentação que eu procurava para proceder ao que chamo de Peritagem Curricular.

Pense: por um lado as avaliações internas, na medida em que são feitas pelo professor ou pela própria instituição de ensino, existem para fazer julgamentos de valor, e propor alternativas no âmbito da sala de aula ou da instituição. Por outro lado, as avaliações em larga escala são elaboradas por um órgão externo às escolas, com a finalidade de fazer juízos de valor e propor alternativas em âmbito mais amplo que o da instituição de ensino, na aplicação do conceito internacional de accountability.

Tais avaliações e juízos são viabilizados pela aplicação de instrumentos de aferição e de análise sistematizada dos resultados e, no tocante à Educação Superior, o ENADE é um teste desenhado para medir o desempenho dos participantes em determinadas situações, com o objetivo de realizar inferências sobre o processo educacional em desenvolvimento.

Da mesma maneira que o INEP propõe a forma como os itens serão elaborados para compor o BNI-ENADE, é possível diagramar – inversamente – eixos dos Domínios/Objetos do Conhecimento versus dos perfis pretendidos pelas DCN em matrizes binárias, de maneira que o cruzamento dos eixos ofereça espaço para alocação das unidades curriculares que se lhe atendem e, com isso, gerenciar analiticamente os conteúdos das unidades curriculares.

O raciocínio é simples: se é possível elaborar uma questão que contenha o conhecimento de um determinado domínio (previsto pela DCN de um curso, especificamente) e que a aplicação desse conhecimento atenda à formação de um ou mais perfis, demandados pela mesma DCN, então é possível planejar – e mesmo peritar – uma matriz curricular alocando suas unidades curriculares nos cruzamentos dos eixos supra, a partir do que elas manifestam em suas ementas.

O resultado desse exercício prático de distribuição das unidades curriculares pelos cruzamentos dos dois eixos da matriz levará, em cada cruzamento, ao núcleo de unidades curriculares que compartilham finalidades similares na contribuição para a formação de perfis profissionais, e ainda, uma visão do todo apontará portos fortes (ou mesmo excedentes) e pontos fracos (ou mesmo inexistentes) da relação entre os conteúdos curriculares e o atendimento aos perfis previstos pelas DCN de cada curso de graduação.

A essa estratégia, ou instrumentação, batizei de Matriz Gerencial Analítico-Pedagógica (MGAP), na falta de um nome melhor, e ela acabou por se tornar um guia referencial para peritagens pedagógicas, ou seja, quantificação de valores de uma composição curricular que antes eram só timidamente qualificáveis.

A MGAP agiliza um primeiro olhar global no trabalho de professores, que como eu, são chamados a avaliar PPC de cursos. Mas com o tempo, ela foi se tornando (altamente) útil em treinamentos, capacitações e conferências, a respeito dos caminhos possíveis para implementar introdução de estratégias problematizadoras, de caráter multidisciplinar e multiprofissional, que abracem a transversalidade, de modo simples e claro.

Em tempos de transição no mundo educacional, onde as metodologias ativas urgem por serem implementadas nos cursos que aspiram por diferenciais para a aprendizagem de seus estudantes e destaque de seus egressos no mercado competitivo, a hibridização curricular pode começar do que já se tem – mesmo nas propostas conteudistas flexnerianas – por meio de estratégias pedagógicas simples, desde que se saiba que e como cruzar o planejamento de tais estratégias, dentro da matriz curricular.

Considere 2 aspectos importantes, quando o assunto é gerenciamento do conhecimento de um PPC: (1) os egressos passam, necessariamente, por avaliações externas periódicas, regulamentadoras do ensino superior no país (ENADE); (2) os resultados dessas avaliações impactam, substancialmente, sobre os indicadores institucionais e do próprio curso. Essas são 2 demandas obrigatórias, das quais nenhum curso superior é capaz de se esquivar, certo?

E se fosse possível usar os mesmos elementos dos itens supra para compor um processo que permeasse ativamente – leia-se ágil, flexível e personalizável – a construção  e revisão periódica do PPC de cada curso (por exemplo em semanas pedagógicas)? O resultado teria o potencial de conferir a esse PPC características desejáveis como maior consistência interna, melhor complementaridade e maior transversalidade.

Como resultado final desse processo simples, ágil e fácil de incorporar, passa-se à possibilidade de mapear o desenvolvimento das competências e habilidades, formadas nos egressos, por meio do acompanhamento da integralização progressiva das unidades curriculares.

avatar denise-1Por isso, a MGAP faz-se em uma construção reflexiva das pretensões institucionais, gerenciando a articulação das unidades curriculares como uma bússola, de tal forma que seja possível inferir:

(1) como as unidades curriculares devem distribuir abordar seus universos de conhecimento, num processo de co-criação e colaboração em tempo real;

(2) como e com quais outras unidades mais estão conectadas, ao contribuir para a edificação de um ou mais dos perfis profissionais descritos nas DCN e em seu próprio PPC;

(3) como evitar sobreposições desnecessárias de conteúdos e, assim, otimizar a carga horária a ela destinada com atividades efetivamente relevantes, focalizadas e imprescindíveis ao futuro profissional;

(4) quais as unidades curriculares que contribuem para um mesmo perfil, a partir do conceito dos domínios de conhecimento, viabilizando a proposição de problemas e simulações de situações práticas de modo organizado e sistematizado.

think outside the box2

Gostou da ideia?!

Nosso trabalho é por um mundo com menos aulas e mais experiências de aprendizagem!

Galeria

Uma visão diferente sobre aprendizagem

A revolução digital é, sem sombra de dúvidas, causa e consequência das mudanças necessárias na educação como um todo, e do Ensino Superior, no contexto desta proposta. No bojo da revolução digital, surgiu uma nova expressão e forma de ver o mundo: o empreendedorismo. Basta esclarecer que a palavra EMPREENDEDORISMO não existia no dicionário até o ano 2000 e que hoje, uma busca Google traz mais de 15 milhões de resultados em 0,43 segundos.

O problema central deste diálogo inicial é o empreender como estratégia na multiplicação de capital intelectual para inovações na aprendizagem, tendo como ponto de partida a mudança de mindset para hibridização das estratégias pedagógicas.

think outside the box3Empreender é uma atitude que não está ligada, necessariamente, a ter uma empresa. Empreender é um modo de pensar e agir de forma inovadora, identificando e criando oportunidades, inspirando, renovando e liderando processo.

Empreender é tornar possível o impossível, entusiasmando pessoas, combatendo a rotina, assumindo riscos em prol de resultados positivos. Uma visão empreendedora é, em síntese, uma visão inovadora, que transforma informação e conhecimento em oportunidades, e que pode resultar – até – em um negócio próprio (empresas, startups) ou simplesmente modificar uma rotina de um local de trabalho, o que se define como uma ação de intraempreender.

Em uma sociedade da informação, onde praticamente todo conhecimento pode ser acessado da palma da mão, por um smartphone, o papel do professor, dos estudantes e dos profissionais, necessita de urgente ressignificação.

“O que define a aprendizagem não é saber muito, é compreender bem aquilo que se sabe. É preciso desenvolver nos alunos a capacidade de estudar, de procurar, de pesquisar, de seleccionar, de comunicar. Para isso, o professor é insubstituível.” (António Nóvoa, 2016)

Para compreender o ponto de vista de Nóvoa, cada professor precisaria desapegar de seu quadro e seu projetor na sala de aula, suas anotações ensaiadas sobre o que falar em cada momento da aula. Mas, e principalmente, deixar de ressentir-se daquele momento em que os estudantes estão manuseando seus smartphones como uma competição. É preciso tomar este momento como oportunidade. É disso que trata um novo pensamento educacional, ou um novo mindset.

mindsetMeus estudos e projetos tratam da aprendizagem, e não do ensino; tratam do engajamento protagonista do estudante na sua própria aprendizagem por caminhos inovadores para todos os envolvidos; tratam da inovação rumo à disrupção na educação, e não de simples inserções multimídia em um modelo pedagógico conteudista vigente.

São propostas inspiradas no pensamento moderno de um dos educadores mais respeitados do mundo, e em como ele, do alto dos seus sessenta anos de idade, já percebeu que a disrupção caminha para dentro da educação a passos largos.

Inspiram-se também no acompanhamento de estudantes de graduação e de pós-graduação, de suas aspirações a contextos profissionais, suas dificuldades em adaptar-se – lá fora, como dizem – ao novo, ao inovador, ao transversal, quando nos bancos da academia seus professores seguiram modelos de ensino que os convidava apenas à memorização de conteúdos.

Como eixo condutor para uma proposta inovadora de aprendizagem, com aspiração de ser disruptiva em um momento posterior, estou desenvolvendo uma proposta que se utiliza de uma das áreas transversais mais tecnologicamente articulada entre profissões da saúde, e cujo franco crescimento na última década atraiu os estudantes e profissionais de modo quase paradoxal. Por um lado, a análise do movimento, qualitativa e quantitativa, é meio e método de intervenção para diferentes profissões da saúde – como Terapia Ocupacional, Medicina, Educação Física, Fisioterapia, Fonoaudiologia – cujo domínio assegura ao profissional um diferencial relevante no mundo do trabalho.

Por outro lado, a complexidade da biodinâmica, que envolve uma análise de movimento, qualitativa ou quantitativa, exercita ativamente, e com significado pleno de aplicação, uma integração de conhecimentos pouco motivada nos currículos tradicionalmente conteudistas. Isso se traduz num grau de dificuldade que acaba por se materializar, justificando a paradoxalidade, em obstáculo à adoção de seus instrumentos no repertório de atuação.

Essa série de posts no blog traz a minha visão de inovação para a educação superior, e as muitas maneiras de pensar e agir que, eu acredito, serem possíveis e viáveis para promover mudanças nos rumos da aprendizagem. Trata de como velhos mapas não levam a novos mundos, e de como já consegui atravessar um oceano e me juntar a outros pesquisadores que acreditam que, juntos, podemos desenhar novos mapas.

Você está convidado a me acompanhar!

fui