A Jornada do Herói como estratégia de Storytelling: CONFLITO ou problema central

Vamos começar esse tópico lembrando que uma narrativa de impacto, para qualquer finalidade, deve mexer com as emoções, e esse é o assunto central para toda aprendizagem. Aposto que, um dia, lá na sua infância, sua mãe lhe dizia “lembrar do que não interessa é fácil, difícil é você aprender o que deve!”. Toda mãe diz disso (mãe é mãe!) quando a gente tira nota baixa na prova da escola, não é mesmo?!

esqueciVamos analisar o porque dessa realidade?

Vejamos: você (e qualquer um, criança ou adulto) se lembra com facilidade da letra da música, da fala dos personagens de uma animação/filme, da piada com palavrão, de fatos aleatórios que você leu/viu em alguma mídia.  Assim como você, e qualquer um, tem dificuldades para memorizar/aprender algo relacionado ao trabalho, ou à escola/faculdade, ou mesmo, às necessidades da vida.

Já parou para analisar o porque disso? A resposta é simples: E-M-O-Ç-Ã-O.

A emoção e os processos de aprendizagem, na vida

A letra da música, a história do filme/animação, a notícia das mídias, a piada, e até os novos palavrões, mexem com a sua emoção, de imediato! Os fatos escolares ou do trabalho não lhe emocionam, antes, causam uma carga emocional negativa de obrigatoriedade, peso emocional negativo.

conexoes cerebraisAí entram as neurociências: seu cérebro é programado, primitivamente, para reter informações que cheguem com peso emocional considerado importante. Nessa classe estão: felicidade, compaixão, alegria, amor, raiva e até mesmo, sobrevivência ou medo de sofrimento/morte.

Todo o restante, como obrigatoriedade e pesares, são descartados antes de se aderirem aos conceitos subsunçores (trilhas mentais organizadas, de conhecimentos pregressos). Na verdade, esse é um mecanismo de autoproteção emocional: evitar o que causa desgosto, ou desprazer, e dar ênfase no prazer e na autorecompensa.

Lembrar algo bom gera motivação, alegria, liberação de serotoninas e facilitações sinápticas no recrutamento da memória, ou seja, ativam muitas áreas cerebrais ao mesmo tempo, fazendo com que um fato ou um estímulo sensorial (cheiros, sons, toques, imagens) seja capaz de ser fortemente armazenado em muitas áreas, ao mesmo tempo.

A questão não é O QUE foi armazenado assim, ou COMO foi capaz de ser armazenado por meio de múltiplas vias neurais, mas PORQUE foi armazenado assim. E a resposta a esse porque é: porque na narrativa/situação em que foi apresentado a você, foi feito para gerar EMOÇÃO e IDENTIDADE.

redundanciasQuando as aulas, a nova função no trabalho, ou outros fatos da vida diária, são apresentados a você no velho esquema “se vira e decora isso”, seu cérebro não identifica motivação emocional positiva para fazê-lo. Então despreza, e não retém a informação, o que torna difícil sua memorização e aprendizagem.

É válido lembrar que por aprendizagem, no sentido stricto da palavra, significa integrar uma nova competência à rede de conceitos subsunçores, agregando valor, sentido e significado à nova rede que se formou. E esse processo não se dá no vazio emocional de aulas expositivas, repletas de tópicos e terminologias novas.

Vale para uma reunião no trabalho, para atender a um cliente/paciente na vida profissional, para uma sala de aula.

A narrativa e o envolvimento real da audiência: EMPATIA

criatividadePortanto, é preciso ter uma boa narrativa para gerar emoção e identidade com a audiência, e convertê-la de ouvintes a aprendizes. Para isso, o principal “tempero” é um conflito/problema que mexa com uma emoção compartilhada pela audiência.

No Storytelling, essa é a alma do negócio, ou seja, é o que vai fazer sua turma querer entender a narrativa e engajar-se na busca por soluções.

Quando você consegue criar esse clima de envolvimento, você conseguiu engajar verdadeiramente seus estudantes na aprendizagem e o desempenho deles será uma consequência natural. E por desempenho entenda-se RESULTADOS DA APRENDIZAGEM. É assim que se planeja e avalia desempenho docente: capacidade de engajar os estudantes na aprendizagem versus o desempenho real, medido em critérios claros de avaliação dessa aprendizagem. Não existe um sem o outro.

Mas atenção:

  • Aqueles velhos estudos de caso, apresentados do modo clássico (velho) não geram 100% de engajamento, portanto, o desempenho estudantil é fraco.
  • Aquelas histórias que conta sobre como você lidou “brilhantemente” com uma situação profissional adversa também pode não gerar engajamento esperado, a menos que você (como personagem principal, ou herói da narrativa) coloque-se em igualdade de condições, e maturidade profissional, que sua audiência possui, no momento da narrativa. Convenhamos: quem conta as próprias histórias, o faz para mostrar alguma vantagem pessoal, e isso não gera engajamento: isso gera resistência.
  • Mostrar narrativas de grandes desastres/catástrofes, geradas por uma decisão errada, pode não surtir o efeito esperado na audiência: o engajamento pela solução. Isso porque boa parte dos estudantes, ainda inseguros na sua maturidade de conhecimentos profissionais, podem apoderar-se do medo do erro, ao invés de engajar-se aprendendo com o erro. Isso também é uma péssima forma de narrativa, do ponto de vista de desempenho de engajamento.

Usando a emoção e a empatia para planejar um CONFLITO na Jornada do Herói

desafio-2.jpgAgora que você entendeu que o poder da emoção e da identidade da audiência, com a narrativa, são determinantes em processos mentais de aprendizagem e retenção de conhecimento, ampliando e aprofundando as redes de conceitos subsunçores para níveis mais avançados, é hora de aplicar esse conhecimento à sua narrativa da Jornada do Herói, em 7 passos (faça o download do roteiro aqui)

Busque no conhecimento que você desenvolve na sua disciplina, ou no tema que escolheu para construir sua Jornada do Herói, um CONFLITO/PROBLEMA claro, direto e inequívoco, e que só pode ser solucionado por um Herói que possua o conhecimento/aprendizagem sobre a qual você está trabalhando, com suas turmas. Essa é a principal chave!

Em geral, você identifica esse elemento quando responde às seguintes perguntas:

  • Qual a solução que uma intervenção, realizada com esse conhecimento novo, traz para o CONFLITO/PROBLEMA apresentado na narrativa?
  • Como os personagens (que não são heróis) sofrem/perdem com esse conflito/problema?
  • Porque só é possível ao herói essa solução, e não aos outros personagens?

Quando você responde a essas 3 perguntas, você traça um esquema que, na sequência, terá o poder de consolidar o conflito da narrativa, por meio de detalhes técnicos e profissionais, por exemplo.

Storytelling ou Storydoing? Saiba a diferença ao escolher a forma de apresentar a narrativa e o conflito/problema

Você pode dosar a participação da turma na narrativa, sabia?

A diferença entre um Storytelling (totalmente narrado e fechado nos elementos constituintes por você) e um Storydoing (que conta com a participação da audiência para a construção da narrativa e/ou soluções e desfechos) é o quanto dessa narrativa você deseja abrir e entregar nas mãos da audiência, ou nesse caso, da sua turma.

Assim, ao traçar o cenário para o conflito/problema da sua narrativa, há duas possibilidades estratégicas:

  • OPÇÃO 1: fechar a trilha, mantendo o controle da narrativa e do desfecho, porque o interesse principal é assegurar alguns tipos de competências técnicas que são essenciais para um padrão ou normativa, que devem ser seguidos e aprendidos, antes de qualquer outra coisa;
  • OPÇÃO 2: abrir a trilha, em alguns trechos, para que a turma faça suas próprias inserções, a partir de levantamentos, pesquisas e argumentos, quando ao menos uma das metas é a inclusão do erro como elemento de aprendizagem.

Na opção 1, você controla todo o processo, controlando o desenvolvimento da Jornada: esse é um Storytelling completo. Lado bom: você sabe exatamente como deverá ser o dimensionamento de tempo, etapas, participações e resultados. Lado ruim: a estratégia perde um pouco da força, já que a narrativa é empática apenas na identificação do Herói.

Na opção 2, você controla parcialmente o processo, porque controla a LINHA MESTRA da narrativa. Nesse tipo de construção estratégica, você abre espaço para que a turma agregue seus próprios elementos e percepções, como por exemplo, detalhes do conflito, ou número e tipos de personagens, ou cenários diferentes para a mesma narrativa, que podem gerar soluções e desfechos diferentes, por exemplo. Nesse caso, você está abrindo para um Storydoing, um exercício de narrativa que dá significado pela utilidade que a audiência percebe, e que agrega e constrói por ações e valores que considera primordiais.

Partir para o Storydoing é um passo além do Storytelling, e não deve ser usado na primeira experiência de uma turma, na mudança das aulas expositivas para metodologias ativas. Apesar de ser muito mais engajador, já que a história não é apenas “entregue pronta”, mas sim, construída colaborativamente, o Storydoing requer alguma familiaridade com a estrutura de narrativa, que é treinada preliminarmente com o Storytelling. A Jornada do Herói é uma estratégia que aceita esse tipo de variação, com excelentes resultados.

O Storydoing tem maior poder de envolvimento e de engajamento, porque admite o ERRO como elemento de correção na formação da trilha de aprendizagem dos estudantes. Mas todos os envolvidos, estudantes e professor, precisam ter estabelecido um ambiente de confiança no erro controlado para que a estratégia funcione.

Em outras palavras, o estudante não pode ter medo de ser punido (perder nota) por aceitar riscos e errar, e cabe ao professor ter estabelecido esse clima de liberdade e de confiança, em práticas de Storytelling anteriores. Combinado? Lado bom: o engajamento é quase máximo, assim como o envolvimento da turma com a aprendizagem, e a composição da narrativa. Lado ruim: você não tem controle total sobre o desfecho dos fatos, embora mantenha o controle sobre o desdobramento da narrativa, já que analisa, aceita/rejeita cada elemento trazido pela turma, argumentando os porques de cada uma dessas decisões. Também o dimensionamento do tempo pode ser afetado, dependendo de como a turma interage com a narrativa.

Note que no Storydoing o lado ruim não é , na verdade, ruim. Ou melhor, só é ruim para professores controladores e que têm medo de arriscar-se em ir além da zona de conforto da aula expositiva. Usar estratégias Story (telling ou doing) para a construção de aprendizagens mais engajadores requer exercício, desprendimento, ambiente emocional seguro, reciprocidade e liberdade. Vale para estudantes, mas vale – principalmente – para professores.

story

Detalhes do Story (telling ou doing) para a construção de um bom conflito/problema

Um boa Jornada de Herói tem riscos, surpresas, e mudanças de ritmo de solução, e se você escolheu qualquer uma das duas opções para traçar sua estratégia de aprendizagem, é bom que anote aí essas ressalvas:

  • O cenário e o conflito/problema não podem ser complexos demais, ou abrir espaço para múltiplas soluções. Isso confunde o ouvinte, drena o impacto da narrativa e dilui a FORÇA MOTIVACIONAL da turma em engajar-se na estratégia.
  • Observe o MOMENTO CURRICULAR em que se encontra a sua turma e trace uma narrativa capaz de usar CONCEITOS SUBSUNÇORES claros, aos quais serão articulados os repertórios do Herói e o engajamento pela solução. Na narrativa, não use elementos que ainda não fazem parte do universo da audiência, sob pena de não atingir os bons resultados que essa estratégia é capaz de promover no desempenho de aprendizagem.

Muito bem! Agora é com você: use o que tem, faça o que sabe, comece começando! E lembre-se dessa máxima: quando o conflito é simples, e a solução é direta, o engajamento é máximo, a apreensão do novo conhecimento fica potencializada, e o estudante aprende para a Vida!

super heroiO próximo texto mostrará que é necessário inserir algumas dificuldades e elementos de pressão, no processo de tomada de decisões e busca por soluções, por parte do Herói, na narrativa. Lembre-se: o Herói deve trazer um elo de identificação com seu estudante e, portanto, as dificuldades e os elementos de pressão deverão ser diretamente relacionados ao significado dessa tomada de decisão, no mundo do trabalho.

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