O mito do Vale não é um mito: é uma atitude e uma ciência

vale do silicio
Quero falar um pouco sobre um Storytelling que gerou praticamente todo o movimento mãos-na-massa que conhecemos hoje. Quero digerir esse merchand do Vale do Silício… Já ouviu falar?

Não, não é o Vale do Silicone, paraíso da cirurgia plástica estética. Mas é mais ou menos assim que as histórias sobre esse recanto mítico da disrupção tecnológica se espalham por aí: distorcidas, segundo o interesse de quem conta.

Eu gosto de histórias de superação de adversidade, no mundo do empreendedorismo. Gosto da força e da resiliência dos que acreditaram e acreditam nas suas próprias ideias. Mas gosto mais ainda de compreender, de fato, quais são os elementos efetivamente envolvidos nessas trajetórias de sucesso. Isso é ciência, com pitadas de energia e alguma dose de futurismo reverso. Universos diferentes que podem e devem coexistir para romper paradigmas, e encontrar novos mapas para novos mundos.

São esses conceitos que levo para a sala de aula, todos os dias, para que meus estudantes tenham maiores chances de sucesso em suas carreiras profissionais: conheça a verdade do método, crie seu próprio caminho, acredite no que pode fazer, faça diferente para fazer a diferença.

Dessa vez, quero juntar no mesmo texto duas coisas de que gosto muito: ciência e Storytelling. Embora pareçam impossíveis de coexistir juntas, essas duas palavras resumem bem algumas verdades atuais que desmistificam, sem contudo, tirar o mérito, do mito do sucesso das empresas de garagem do Vale do Silício, ou das multimilionárias empresas de garagem e o sonho da fama digital instantânea (leia o texto completo – e excelente – de Tom C. Avendaño).

As histórias que giram em torno do mito da garagem rendem muito para aqueles que formataram Storytelling de forma a entregar, aos que acreditam (ou querem acreditar), fórmulas mágicas de sucesso, subvertendo as bases do conhecimento significado e aplicado verdadeiramente envolvido nesse processo.

Quais as lições que se tiram do sucesso do Vale do Silício para aplicar na sala de aula do ensino superior, e nos laboratórios de pesquisas em inovação?

redundancias

Estamos nas salas de aula do ensino superior e essa nova geração sonha em fazer história a partir de elementos de um bom Storytelling: uma garagem, muitas ideias e uma oportunidade única no mundo da tecnologia digital.

Por outro lado, os professores no Ensino Superior apenas consideram o cumprimento de ementas e de conteúdos, concebidos e regulados desde o tempo onde diplomar-no-conteúdo-mínimo gerou uma legislação mínima obrigatória, em detrimento do desenvolver-competências-profissionais.

Professores ainda acreditam que a melhor forma de oferecer ensino é reproduzir os modelos pelos quais foram formados, e que dominam bem, e se esquecem que o ponto central é a aprendizagem, não o ensino. Embora muitos docentes já duvidem desse sofisma, apenas alguns partiram em busca de repertórios para transformar sua prática docente.

Cada um, nesse cenário chamado sala de aula, espera por algo diferente daquilo que o outro tem para oferecer. Nascem os conflitos, morrem os sonhos. Mas será que tem que ser assim?

Nesses anos que se sucederam, desde 2010, vivemos momentos de importantes redescobertas dos nossos próprios papéis e responsabilidades perante o que se deveria se chamar APRENDIZAGEM, mas que se convencionou tratar como ENSINO. A diferença entre essas duas designações do processo educacional é o ponto de inflexão que separa modelos e formatos, e se encontra no objeto da aprendizagem e na ação de aprender.

O que se presencia hoje, quando se usa a expressão “modelo superado” é a referência a um cenário de desnutrição avançada do sistema de ENSINO, onde as células chamadas salas-de-aula possuem poder de atividade metabólica cada vez menor na produção de elementos básicos: cada vez menos se aprende dentro delas, e cada vez mais se afirma precisar delas, para aprender.

Como solucionar esse paradoxo?! Maturana e Varela trazem a resposta ao propor a autopoiese como o ponto de equilíbrio de sistemas abertos e autossustentáveis: faça da sala de aula um sistema aberto e autossustentável que ela voltará a ocupar um papel central no processo educacional. Ponto.

“Autopoiese ou autopoiesis (do grego auto=próprio, poiesis=criação) é um termo criado na década de 1970 pelos biólogos e filósofos chilenos FRANCISCO VARELA e HUMBERTO MATURANA para designar a capacidade dos seres vivos de produzirem a si próprios. Segundo esta teoria, um ser vivo é um sistema autopoiético, caracterizado como uma rede fechada de produções moleculares (processos) em que as moléculas produzidas geram com suas interações a mesma rede de moléculas que as produziu. A conservação da autopoiese e da adaptação de um ser vivo ao seu meio são condições sistêmicas para a vida. Portanto, um sistema vivo, como sistema autônomo está constantemente se autoproduzindo, autorregulando, e sempre mantendo interações com o meio, onde este apenas desencadeia no ser vivo mudanças determinadas em sua própria estrutura, e não por um agente externo”.

Para revitalizar o sistema educacional é preciso trazer novos elementos para esse enredo. Elementos que se tornaram parte da “vida lá fora” mas que ainda se ausentam da “vida aqui dentro” da faculdade/universidade.

aprendizagem-1Parte da solução é acabar com o “lá fora”, porque tudo é um só mundo, e é nele e para ele que se aprende. Parte da solução é que o “aqui dentro” seja uma extensão significada do mundo e que lugar de aprender seja todo lugar. Não somente na sala de aula.

Mudando a premissa, mudam-se os paradigmas. Isso é ciência aplicada. Então, vamos aplicá-la derrubando as paredes da sala de aula que dividem os mundos “lá fora” e “aqui dentro”!

É possível fazer diferente do que fazemos e conciliar as expectativas de todos os envolvidos no cenário da Educação Superior?

Sim é possível. Mais do que isso: é IMPRESCINDÍVEL (maiúsculamente!)

Na minha opinião, há 3 pilares que podem sustentar os caminhos institucionais de AUTOSSUSTENTABILIDADE DO PROCESSO DE APRENDIZAGEM: (1) a tríade da construção do sucesso sem-uma-garagem; (2) a diferença entre processos solitários e solidários; (3) a garagem existe.

Entenda como isso é possível, entendendo os 3 pilares que seguem.

1- CONHECIMENTO SIGNIFICADO, EXCELENTE PLANEJAMENTO, DEDICAÇÃO OBSTINADA E NETWORK RELEVANTE: A TRÍADE DA CONSTRUÇÃO DO SUCESSO SEM-UMA-GARAGEM.

A busca pelo sonho é genuína. Acreditar no próprio valor e defender a realização das ideias é empreender, na mais genuína expressão da palavra. Mas nem tudo é para todos, no sentido de que um caminho que foi trilhado por “A” levará sempre ao mesmo lugar, se trilhado pelo restante das letras do alfabeto. Mapas são guias, não são destinos.

O sentido do “nem tudo é para todos” vem do princípio que tudo pode ser construído, mas não é possível construir tudo. O planejamento é a chave do sucesso: qual o seu modelo de negócio? É aqui que o conhecimento, em seu estado atual, começa a fazer sentido, ou ganhar significado.

consultoria
O conhecimento significado é capaz de PROMOVER ENGAJAMENTO E CONSTRUIR UMA APRENDIZAGEM BASEADA NA SOLUÇÃO DE PROBLEMAS. A solução de problemas, por sua vez, demanda planejamento e, QUANTO MELHOR FOR O PLANEJAMENTO, maiores as chances de sucesso para a solução proposta.

Para um planejamento excelente é necessário conectar as pontas certas dessa trama de repertórios, oportunidades, tecnologias e soluções. O tempo e dedicação investidos no planejamento potencializam os recursos e esforços nas soluções encontradas. É aqui que a prática de networking catalisa o processo: conhecer pessoas certas nos lugares essenciais para tornar as soluções do planejmento

Esse tipo de aprendizagem, com significado, é a única capaz de empoderar o estudante com competências que o habilitam expandir a aprendizagem na aplicação do conhecimento na geração de novas soluções para outros problemas.

2- PROJETOS DISRUPTIVOS NÃO SÃO SOLITÁRIOS, SÃO SOLIDÁRIOS.

professor no sistema-3Gosto dessa expressão e a utilizo sempre que posso. Uma letra e toda a diferença do mundo! Os produtos disruptivos que conhecemos (e usamos muitos deles hoje) nasceram de colaborações transversais, complementares e sustentáveis.

Para você entender a diferença, dois engenheiros sempre produzirão excelentes projetos para aprimorar um processo já existente, seja uma construção ou uma forma de calcular os elementos envolvidos em construções. O nome disso é INOVAÇÃO INCREMENTAL, e muitos de nós fazemos isso todos os dias.

Professores em suas salas de aula incrementam seus processos didáticos usando vídeos, power-point, prezis, áudios, podcasts modelos, práticas. Mas continua sendo “aula”  e “ensino”, no sentido stricto das palavras, ou seja, tais inovações melhoram a mesma experiência. Mais do mesmo.

Para interagir em profundidade e transformar realidades é preciso interação com outras áreas, outros conhecimentos, outros olhares. É preciso desconstruir ideias, ambientes e conceitos muito bem estabelecidos, junto com profissionais e expertos de outras áreas do conhecimento.

É necessário que vários olhares genuinamente empáticos sejam dirigidos sobre processos, produtos e serviços para desenhar novas soluções, verdadeiramente inovadoras, e que atendam a velhos problemas sob novos paradigmas. Isso é INOVAÇÃO DISRUPTIVA e, essa sim, conduz a processos, produtos e serviços completamente novos, inovadores e empáticos. Não é mais do mesmo: é o NOVO!

desafio-2Esse conjunto lhes garante escalabilidade, interesse, engajamento de novos comportamentos e, finalmente, a adoção de novos hábitos girando em torno da disrupção.

A disrupção faz com que o velho modelo sala de aula seja abandonado, ou restrito a situações específicas e pontuais, dentro de uma nova realidade, quase sempre tecnologia-mediada.

Mas, se alguém quiser trabalhar por inovações disruptivas na Educação, ou em qualquer outra área, é preciso saber duas coisas: não se consegue escalabilidade se a disrupção não emergir da empatia, e não se consegue ser empático sem aplicação significada do conhecimento.

3- O MITO DA GARAGEM COMO REFERÊNCIA PARA O SUCESSO: MODELOS COLABORATIVOS SÃO “A GARAGEM”

Voltando ao mito da garagem, que ressoa tão claro para as novas gerações, e tão negativo para os professores, temos:

“Tanto Hewlett Packard como Apple, Google, YouTube e Facebook se gabam de terem sido criadas do nada. Na realidade, beberam da experiência prévia e dos contatos de seus chefes (…) A garagem não é só um enclave geográfico. É um estado mental. É a rejeição do ‘statu quo’. É afirmar: não preciso de dezenas de engenheiros com mestrado para fazer frente à concorrência. A garagem é um símbolo. Um aviso do gênero ao qual pertence a origem de cada empresa. É o sonho americano. E também é mentira” (Guy Kawasaki, ex-funcionário da Apple e autor de vários livros sobre empreendedorismo no Vale do Silício – leia o texto completo aqui).

Poucos mitos da garagem resistem a uma boa investigação. Mas esse não deve ser o ponto. Mesmo que o escrutínio da Storytelling contada conduza ao fato de que a garagem tenha sido elemento catalisador de sonhos para atingir uma identidade de massa e vender “alguma coisa”, de produtos aos mapas de como fazer “sua própria garagem acontecer”, é preciso dar valor aos alicerces que realmente conduziram ao sucesso. E atuar de forma positiva e protagonista sobre eles.

Quem eram, afinal, os empreendedores de garagem do Vale do Silício?

think outside the box3Leituras sobre a biografia de cada um deles vai levar à conclusão de que se tratava de GENTE BEM CONECTADA, com NETWORK de qualidade, EXPERIÊNCIA em outras empresas, ALTA CAPACIDADE DE PLANEJAMENTO e de organização, CRIATIVIDADE E LÓGICA em ponto de equilíbrio para desenvolver conceitos e modelos disruptivos, DETERMINAÇÃO E FOCO NO OBJETIVO, METAS CLARAS e uma boa dose de OUSADIA E AUTOCONFIANÇA. Os mesmos ingredientes que os gurus de palco apostaram para fazer seus nomes nas ondas de seguidores digitais, e vender seus produtos.

Mas, por outro lado, esses deveriam ser também os paradigmas de todos os envolvidos no processo educacional! Então, ao invés de criticar empreendedores de palco que fizeram fama junto das massas desiludidas com a escola que oferecemos, e que usam o lema “o que se precisa no mundo do trabalho e na vida não se aprende na escola”, passemos a desenvolver na escola aquilo que se exige no mundo do trabalho e na vida. Parece meio lógico para mim… E para você?

A partir dessas histórias míticas, surgiram muitos pacotes, métodos e gurus, para se vender um sem-fim de crenças sobre como trazer o Vale do Silício para sua vida e sua realidade. Essa não é uma tarefa impossível, mas vivemos num contexto totalmente diferente, e fazemos parte de uma sociedade que tem Mindset, valores culturais e educacionais diferentes daqueles da Vale, onde tais pacotes e métodos foram aprendidos e concebidos.

Não obstante o mito e as lendas distorcidas, como educadora, acredito na densidade que paira sobre espaços educacionais – de qualquer natureza – como catalisadores de pessoas com Mindset semelhantes. A história e a prática mostram que, quando essas pessoas estão juntas, num mesmo espaço, elas aumentam a densidade local de Mindset inovadores, e são capazes de dar início a processos colaborativos capazes de deflagrar soluções criativas para chegar de forma mais rápida e criativa aos seus propósitos.

Mas a razão básica não é o local, de per se. Se analisarmos os contextos, veremos que juntas, essas pessoas desenvolveram condições para um ecossistema favorável aos processos colaborativos. Como isso acontece em escala exponencial no Vale do Silício, muito mais do que em qualquer outro lugar no mundo, as histórias do Vale não são mitos. Mitos são as histórias que se contam sobre as histórias do Vale.

 

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