3 coisas (novas) para a (velha) sala de aula: expansão dos espaços de aprendizagem

Nada nos é mais conhecido que uma sala de aula porque, para cada um de nós, ela é/foi cenário de boa parte da vida, da infância à fase adulta.

Nesse cenário você descobriu novas emoções, relações, ações, interações e reações. A sala de aula possui, no nosso imaginário, um formato padrão: mesa do professor, tela/quadro, lugares para se sentar, quatro paredes, algumas janelas, um teto e, pelo menos, uma porta.

Essa representação mental de uma sala de aula padrão confere segurança ao lado lógico do cérebro: do que acontece lá dentro você conhece as regras, os padrões de comportamento e as possibilidades de resultados. Talvez essa seja a razão pela qual todos os que seguiram para a carreira docente, pelas últimas quatro décadas, tenham reproduzido esse modelo com pequenas variações de disposição dos elementos e de comportamentos entre os atores desse cenário.

Porque e como fazer mudanças na sala de aula

Século XXI, era pós-digital, desenvolvimento exponencial de tecnologias, processos, produtos e serviços. Está na hora de fazer um upgrade também naquela sala de aula das suas lembranças e conciliar a transição entre os velhos modelos de aula para as novas estratégias de aprendizagem.

Uma transição que parte do planejamento e não exige investimentos, apenas criatividade em usar o que está às mãos, em sua instituição e com seus estudantes.

Passo 1: Economia e neurociências da atenção

1.1. PROBLEMA: Atenção é um bem precioso, nos dias de hoje. Como lidar, na sala de aula, com gerações que acessam digitalmente cada vez mais conteúdo, e tem cada vez menos tempo de atenção?

200HControvérsias à parte sobre o tempo de atenção que a nova geração é capaz de manter, há um consenso no conceito de que a capacidade de cativar a atenção está em oferecer estímulos de engajamento, e não, de obrigatoriedade.

Estudar a atenção, em crianças e adultos, é um desafio que vem sendo superado pela tecnologia e pelo interesse comercial que o assunto desperta. Grandes empresas (Microsoft, Mashable) encomendam pesquisas mais ágeis, instituições de ensino superior e pesquisadores buscam as relações entre causas e consequências entre tecnologia versus atenção.

O assunto é tão urgente quanto polêmico. Compreender e assumir os novos preceitos das neurociências do foco e da atenção, influenciadas pelos hábitos da era pós-digital, implica em ter que reformular todo o sistema de distribuição de tempo na Educação. É uma zona de conforto muito ampla, que acolhe muita gente, e que – exatamente por isso – encontra enorme resistência.

Mas o problema de base é claro: estudos apontaram que a média de tempo de atenção livre corresponde a cerca de 3 a 8 minutos, e de atenção para aprendizagem, de 8 a 20 minutos. No máximo. O que fazer, então, com o planejamento da aula?

1.2. REFLEXÃO: O primeiro ponto é expandir a própria mente, professor. Saia da caixa – da sua caixa – e aprenda mais sobre as transversalidades que podem contribuir para a melhoria de suas práticas. A primeira delas é a ATENÇÃO, que já introduzimos acima. Mas fora das neurociências também há inúmeros e novos conceitos que podem auxiliá-lo na tarefa de conseguir manter a atenção dos seus estudantes em sala de aula.

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Trecho destacado do livro O guia completo do Storytelling, de Fernando Palacios & Martha Terenzzo, Editora Alta Books, Rio de Janeiro/RJ (2016).

“O conceito de Economia da Atenção, por exemplo, modifica um paradigma essencial da atuação docente, qual seja, passar do dar aulas para o desenhar trilhas de aprendizagens. Em termos de economia da atenção, mais-é-menos.

Em outras palavras, se um professor deseja – de verdade – ganhar a atenção do estudante e, assim, despertá-lo para seu papel protagonista no processo de aprender, ele precisa não preencher horas e horas de aulas com assuntos prontos, mas com pontos de contato (ou touch-points) capazes de instigar o desejo do estudante em engajar-se no assunto e explorá-lo de forma significada.” (Leia o texto na íntegra e o estudo de caso sobre Economia da Atenção aqui)

1.3. SOLUÇÕES: Considere o planejamento de suas aulas sob três perspectivas integradas.

1.3.a. Um touch-point de impacto, nos primeiros oito minutos de aula é capaz de engajar a atenção por mais de vinte minutos seguintes e consecutivos. Para isso use recursos que falem a mesma linguagem dos seus estudantes (e não a sua!).

Se o domínio a ser trabalhado na aula for de predomínio cognitivo (CONHECIMENTO) ou psicoafetivo (ATITUDES) valem trechos de séries, filmes, livros, casos, investigações, problemas. Se, por outro lado, o domínio de predomínio for o psicomotor (HABILIDADES), estratégias de TED talks, gamificação, simulações, teatralização, produção de material em multimídia (usando celular e grupos de Facebook, por exemplo) são exemplos simples e altamente engajadores.

1.3.b. Use o Princípio de Pareto e encontre seus 80/20 de conteúdos. É preciso definir, no conteúdo da sua disciplina, os temas de alta e de baixa densidade de informação/aprendizagem. Essa é a primeira parte do planejamento centrado na aprendizagem do estudante e com foco na capacidade de atenção produtiva e espontânea.

1.3.c. Organize blocos de até 20 minutos, no estilo começo-meio-fim,
para os temas de alta densidade de informação/aprendizagem, intercalados de 3 a 5 minutos de dispersão ativa (em outro texto podemos discutir essa estratégia). Com isso, cada bloco de alta densidade de informação/aprendizagem terá marcas claras (na sua fala, no material de exposição, nas interações com os estudantes) sobre onde começou, qual a sua finalidade e onde finalizou para que comece outro bloco.

Você pode adotar estratégias conhecidas no meio empresarial, como o Método Pomodoro, por exemplo, que trabalha núcleos de foco total por 17 minutos. O importante é alternar as vias neurais frontais da atenção, permitindo que a oscilação de sinais mantenha a performance desejada para a aprendizagem máxima.

Passo 2: O mundo é a sala e a sala deve estar no mundo

2.1. PROBLEMA: aqui, CON-TE-Ú-DO é seu problema, se o seu foco é “apresentar conteúdos”. Não há a menor possibilidade de você, professor, reunir mais conteúdo em sua aula do que um estudante seja capaz de encontrar sozinho, na palma da mão e a um clique de distância. Então, qual é a sua função, nesse mundo pós-digital?

2.2. REFLEXÃO: Curadoria Educacional e Profissional, essa é a sua grande atuação!

O conteúdo pode estar a um clique de distância, mas o estudante quer (e precisa) da sua experiência em transformar o conteúdo em conhecimento, em selecionar fontes confiáveis, em orientar sobre as transversalidades envolvidas nesse conteúdo e em sua aplicação profissional. E essa experiência é o motivo central de ele estar na sua aula.

Se a sua aula se torna um repetir-de-conteúdo, ela se torna obsoleta, enfadonha e desinteressante. Aí, voltamos à Economia e as Neurociências da Atenção: mais-é-menos.

Menos foco e milhares de conteúdos e mais storytelling com Lei de Pareto: bons cenários profissionais, situações que exigem tomadas de decisão a partir do foco adotado e do conteúdo que está sendo aprendido, conflitos entre decisões e situações sócioculturais.

Traga a vida para dentro da sua disciplina e dê alma ao conteúdo: só assim ele se transforma em conhecimento.

2.3. SOLUÇÕES: conectar a sala com o mundo significa estar conectado com o aprender-a-aprender o tempo todo. As salas de aula perdem as paredes e a informação entra em grandes quantidades e você deve estimular seu estudante na busca por informações, novidades, futurismo e transversalidades relacionadas com seu conteúdo disciplinar.

Quando o estudante traz aquilo que ele encontra (e muita coisa é ruim mesmo!), esse movimento cria outro: o da apresentação de balizadores de segurança de fonte e de informação (evidências fortes e fracas), estratégias para buscas melhores, treinamento de feeds de plataformas para ter acesso a informações melhores e mais confiáveis, seleção e interatividade com o que é nuclear para a disciplina, a formação e o Curso em que está matriculado.

Com procedimentos assim, não é preciso dedicar tempo de aula para explicar regras: aprende-se fazendo. É o tal maker movement (ou movimento mãos na massa) e pode ser aplicado naqueles momentos entre blocos de atenção Pomodoro (item 1.3.c).

Com essas soluções, só o que você precisa, agora, são os recursos para EXPANDIR SUA SALA DE AULA!

Passo 3: Recursos de expansão

3.1. PROBLEMA: Quem nunca ouviu/falou “-Mas eu não tenho recursos para implantar melhorias metodológicas!”, ou ainda, “-Nenhum outro professor vai mudar de metodologias didáticas, então não dá pra fazer nada sozinho…”. Dá sim. Acredite!

3.2. REFLEXÃO: O problema não é precisar que outros façam TAMBÉM, mas é inspirar os estudantes a serem diferentes, melhores, mais engajados e, eles mesmos (os estudantes) estimularão os outros professores a mudarem. Ou ao menos, discutirem o porque dos estudantes estarem mudando.

Nesse caso, uma andorinha faz verão, sim. Seja essa andorinha! Há um sem número de possibilidades de expandir a sala de aula e manter conectividade ativa de aprendizagem com a maior parte dos estudantes. Mas isso requer que você saia da sua zona de conforto e “tecnologize-se”…

3.3. SOLUÇÕES: Eu aprendi a usar muitas coisas para estimular a atenção dos estudantes e capturar seu interesse pelo que falo e faço, em cada aula. Nunca é a mesma coisa e depende da turma, seus interesses e expectativas, e do que tenho à mão, em cada semestre. Olha só alguns exemplos:

3.3.a. QR-Codes espalhados pelos locais de acesso às aulas despertam a curiosidade (de todos, não só dos seus estudantes!). Eu espalho QR-Codes na primeira semana de cada mês pelos acessos e, cada QR-Code leva a um texto ou vídeo que transmite uma mensagem, complementa ou desperta uma ideia ou opinião, apresenta uma inovação ou uma nova forma de fazer velhas coisas. Ao longo do mês eles vão me trazendo as dúvidas, eu vou conectando-as com meus assuntos, e vamos tecendo uma teia de aprendizagem fora da sala de aula. Ah! Nesse modelo, eu acabo recebendo alguns estudantes ouvintes para algumas aulas, porque eles também acessaram os QR-Codes e se interessaram pela forma de trabalharmos o conhecimento.

3.3.b. Grupos Didáticos Digitais/GDD são uma estratégia de baixo custo e alta aderência. Todo semestre eu reúno meus estudantes de todas as disciplinas num mesmo grupo FECHADO, hospedado no Facebook (a maior parte dos planos pré-pagos de telefonia celular não consome dados do pacote para acessar o Facebook, ao contrário de qualquer outra plataforma, na falta de wi-fi institucional).

Com isso, mesmo fora dos hotspots da universidade, os estudantes podem compartilhar eventos, notícias, artigos, postar tarefas digitais, fazer enquetes, votar em melhores informações compartilhadas, notificar oportunidades de estágios, bolsas, concursos… As regras de uso do grupo são claras e estabelecidas no início do semestre.

Confesso que nunca tive o menor problema com isso, ao contrário: reunir no mesmo grupo turmas de semestres diferentes ajuda na socialização, na interação, nas expectativas de todos os estudantes. Os GDD são uma das minhas melhores experiências de expansão de sala de aula, desde 2016!

3.3.c. Canais de Teleaprendizagem no YouTube facilitam a adoção de estratégias de sala de aula invertida, parcial ou totalmente. Desde 2016 venho aprimorando essa experiência com muito sucesso e os resultados vêm no rendimento da maior parte das turmas.

3.3.d. Simulações com tecnologias de mensuração engajam a curiosidade, primeiro, para depois engajar a atenção, e na sequência, vem o engajamento na aprendizagem. Um design de aprendizagem relativamente simples e que reverbera de modo bastante positivo na aprendizagem e no engajamento dos estudantes em participar das aulas, para além de somente assisti-las.

Agora seus espaços de aprendizagem estão prontos!

São três ações relativamente simples de serem implementadas: CAPTURA ATIVA da atenção, ESPAÇOS DE APRENDIZAGEM para ampliar a velha sala de aula, e ENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIAS leves, ágeis e criativas no percurso de aprendizagem.

Com essas três ferramentas você já pode começar a trabalhar por melhores resultados: para você, para seus estudantes, para sua Instituição e para a formação dos profissionais do futuro.

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