MGAP e a peritagem curricular

Há alguns anos me dedico às questões de gestão pedagógica do ensino superior e, entre elas, a desconfiguração comum que uma matriz curricular sofre, pela mutação homeopática dos ementários que dão vida às unidades curriculares que a compõem.

Para quem é do “chão de fábrica” do ensino – ou seja, está na sala de aula e nas reuniões de colegiado para pensar o formar dos egressos, no dia a dia – isso não vai soar como novidade. Afinal, do mesmo modo que o hábito faz o monge, o professor vai moldando a ementa à sua natureza e principalmente, à sua zona de conforto.

Não que esse seja, de todo, um comportamento reprovável, mas a verdade é que poucos estão atentos para os reflexos em cascata que isso é capaz de impactar num Projeto Pedagógico de Curso (PPC). Como uma insuficiência renal ou uma hipertensão arterial, o dano corre silencioso e invisível, por anos a fio.

Até o dia em que um recredenciamento ou a necessidade de uma atualização ou mudança curricular (Diretrizes Curriculares Nacionais estão todas sendo atualizadas neste 2016, atenção!) exige um olhar mais analítico sobre o quê efetivamente está sendo oferecido em sala de aula, em termos de formação curricular. E muitas vezes (na maioria delas, aliás) os resultados são desoladores.

Uma proposta curricular que era clara, com propósitos e objetivos alinhados, de repente (mas não tão de repente assim) encontra-se desfigurada pelo turnover dos professores que passaram e por suas respectivas ementas que foram sendo sutilmente modificadas, “melhorando” a um interesse próprio. Esse é o fenômeno imperceptível mais comum de ser encontrado, e tais mudanças e interesses não são providos de má fé: ao contrário, cada professor pensa sempre em dar o seu melhor.

O problema é que nem sempre “o seu melhor” é aquilo que o PPC entende como melhor no conjunto tecido pelas unidades curriculares, como foram planejadas. Então, tem início um processo onde uma cadeia de conhecimentos sequenciada e planejada fica corrompida e interrompida, perdendo sua lógica inicial.

Tendo em mãos, por inúmeras vezes, esse tipo de acontecimento, meu cérebro (que adora minimizar seu próprio trabalho e tem uma séria mania de buscar por soluções mais permanentes e flexíveis, quanto possível) sempre se incomodava com o processo quase Neantherdal das infindáveis reuniões de discussão para analisar danos e medidas paliativas.

Medidas paliativas não curam, portanto o retrabalho era consequência iminente (e indesejada para esse meu cérebro metido a folgado), embora seja uma constante entre professores negar que tais “pequenas alterações” atinjam de forma substancial o espírito de um PPC. Mas atingem, e da mesma maneira que, em um supermercado, trocos de dez centavos forem sendo negligenciados; no montante de um mês, ou de um ano, o buraco é mais que significativo!

Portanto aceite a realidade e só então conseguirá mudá-la. Foi o que fiz.

10411866_947462095300803_3032084027919842840_nJá era momento de estudar um pouco mais para pensar em uma instrumentação (gosto dessa área de desenvolvimento de instrumentações inovadoras e ágeis!) para acabar com essa novela da reabilitação dos PPCs por meio de consertos dos ementários.

Muitos temas transversais se repetiam, consumindo horas preciosas de encontros (ou aulas) onde se poderiam trabalhar competências, habilidades e atitudes novas e inovadoras. Mas havia mais: nenhum PPC, até onde eu havia tido conhecimento, efetivamente alinhava seus conteúdos claramente com os perfis curriculares demandados pelas DCN.

A pergunta “qual(is) unidade(s) curricular(es) contribui(em), com quanto, para exatamente, qual(is) perfil(s)” não tinha resposta clara e quantitativa. Havia sempre um discurso de que o conjunto do conhecimento, ao final do curso, atendia aos perfis, porém, com a tecnologia correndo solta pelo mundo do trabalho, com os conceitos e conhecimentos se renovando e mudando a cada minuto, como assegurar que estamos formando profissionais que atendam a todos os perfis previstos, se as unidades curriculares são tanto estáticas quanto personalizadas?

A resposta só veio em 2012, dois anos depois que comecei a fazer parte da equipe de elaboradores do Banco Nacional de Itens do Exame Nacional de Desempenho Estudantil (BNI-ENADE). Após os dois primeiros anos de estudos para atender às demandas e regulamentações da elaboração de itens, passei a revisora e então, a partir de um padrão simples, que reverti, surgiu a instrumentação que eu procurava para proceder ao que chamo de Peritagem Curricular.

Pense: por um lado as avaliações internas, na medida em que são feitas pelo professor ou pela própria instituição de ensino, existem para fazer julgamentos de valor, e propor alternativas no âmbito da sala de aula ou da instituição. Por outro lado, as avaliações em larga escala são elaboradas por um órgão externo às escolas, com a finalidade de fazer juízos de valor e propor alternativas em âmbito mais amplo que o da instituição de ensino, na aplicação do conceito internacional de accountability.

Tais avaliações e juízos são viabilizados pela aplicação de instrumentos de aferição e de análise sistematizada dos resultados e, no tocante à Educação Superior, o ENADE é um teste desenhado para medir o desempenho dos participantes em determinadas situações, com o objetivo de realizar inferências sobre o processo educacional em desenvolvimento.

Da mesma maneira que o INEP propõe a forma como os itens serão elaborados para compor o BNI-ENADE, é possível diagramar – inversamente – eixos dos Domínios/Objetos do Conhecimento versus dos perfis pretendidos pelas DCN em matrizes binárias, de maneira que o cruzamento dos eixos ofereça espaço para alocação das unidades curriculares que se lhe atendem e, com isso, gerenciar analiticamente os conteúdos das unidades curriculares.

O raciocínio é simples: se é possível elaborar uma questão que contenha o conhecimento de um determinado domínio (previsto pela DCN de um curso, especificamente) e que a aplicação desse conhecimento atenda à formação de um ou mais perfis, demandados pela mesma DCN, então é possível planejar – e mesmo peritar – uma matriz curricular alocando suas unidades curriculares nos cruzamentos dos eixos supra, a partir do que elas manifestam em suas ementas.

O resultado desse exercício prático de distribuição das unidades curriculares pelos cruzamentos dos dois eixos da matriz levará, em cada cruzamento, ao núcleo de unidades curriculares que compartilham finalidades similares na contribuição para a formação de perfis profissionais, e ainda, uma visão do todo apontará portos fortes (ou mesmo excedentes) e pontos fracos (ou mesmo inexistentes) da relação entre os conteúdos curriculares e o atendimento aos perfis previstos pelas DCN de cada curso de graduação.

A essa estratégia, ou instrumentação, batizei de Matriz Gerencial Analítico-Pedagógica (MGAP), na falta de um nome melhor, e ela acabou por se tornar um guia referencial para peritagens pedagógicas, ou seja, quantificação de valores de uma composição curricular que antes eram só timidamente qualificáveis.

A MGAP agiliza um primeiro olhar global no trabalho de professores, que como eu, são chamados a avaliar PPC de cursos. Mas com o tempo, ela foi se tornando (altamente) útil em treinamentos, capacitações e conferências, a respeito dos caminhos possíveis para implementar introdução de estratégias problematizadoras, de caráter multidisciplinar e multiprofissional, que abracem a transversalidade, de modo simples e claro.

Em tempos de transição no mundo educacional, onde as metodologias ativas urgem por serem implementadas nos cursos que aspiram por diferenciais para a aprendizagem de seus estudantes e destaque de seus egressos no mercado competitivo, a hibridização curricular pode começar do que já se tem – mesmo nas propostas conteudistas flexnerianas – por meio de estratégias pedagógicas simples, desde que se saiba que e como cruzar o planejamento de tais estratégias, dentro da matriz curricular.

Considere 2 aspectos importantes, quando o assunto é gerenciamento do conhecimento de um PPC: (1) os egressos passam, necessariamente, por avaliações externas periódicas, regulamentadoras do ensino superior no país (ENADE); (2) os resultados dessas avaliações impactam, substancialmente, sobre os indicadores institucionais e do próprio curso. Essas são 2 demandas obrigatórias, das quais nenhum curso superior é capaz de se esquivar, certo?

E se fosse possível usar os mesmos elementos dos itens supra para compor um processo que permeasse ativamente – leia-se ágil, flexível e personalizável – a construção  e revisão periódica do PPC de cada curso (por exemplo em semanas pedagógicas)? O resultado teria o potencial de conferir a esse PPC características desejáveis como maior consistência interna, melhor complementaridade e maior transversalidade.

Como resultado final desse processo simples, ágil e fácil de incorporar, passa-se à possibilidade de mapear o desenvolvimento das competências e habilidades, formadas nos egressos, por meio do acompanhamento da integralização progressiva das unidades curriculares.

avatar denise-1Por isso, a MGAP faz-se em uma construção reflexiva das pretensões institucionais, gerenciando a articulação das unidades curriculares como uma bússola, de tal forma que seja possível inferir:

(1) como as unidades curriculares devem distribuir abordar seus universos de conhecimento, num processo de co-criação e colaboração em tempo real;

(2) como e com quais outras unidades mais estão conectadas, ao contribuir para a edificação de um ou mais dos perfis profissionais descritos nas DCN e em seu próprio PPC;

(3) como evitar sobreposições desnecessárias de conteúdos e, assim, otimizar a carga horária a ela destinada com atividades efetivamente relevantes, focalizadas e imprescindíveis ao futuro profissional;

(4) quais as unidades curriculares que contribuem para um mesmo perfil, a partir do conceito dos domínios de conhecimento, viabilizando a proposição de problemas e simulações de situações práticas de modo organizado e sistematizado.

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Nosso trabalho é por um mundo com menos aulas e mais experiências de aprendizagem!

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Teoria dos Híbridos na Educação: Inovação Disruptiva

Christensen é um dos pioneiros no que denominou de inovações híbridas na educação. Segundo ele, as inovações híbridas são um estágio intermediário para uma inovação disruptiva, partindo de uma inovação sustentada a partir de um modelo anterior de tecnologia (CHRISTENSEN et al., 2013).

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Por razões previsíveis, a indústria de toda natureza, cria híbridos como forma de testar novos conceitos, ideias, produtos e serviços, até que o mercado, adaptado ao híbrido, esteja pronto para uma disrupção.

Para Christensen (CHRISTENSEN et al., 2013), as inovações híbridas seguem um padrão distinto, com quatro características fundamentais:

(1) representa a nova e a antiga tecnologia, enquanto uma disrupção não oferece a tecnologia anterior em sua forma plena;

(2) buscar atender aos clientes já existentes, em vez de formar novos clientes, induzindo-os a um novo hábito para conhecidas finalidades;

(3) procura ocupar o espaço de uma tecnologia pré-existente e tem, como resultado, a obrigação de atingir um desempenho que supere as expectativas dos clientes existentes, uma vez que o híbrido precisa realizar o trabalho pelo menos tão bem quanto o produto anterior;

(4) seu uso tende a ser mais simples do que o de uma inovação disruptiva, porque ele não reduz o nível de renda e/ou conhecimento necessário para adquiri-lo e operá-lo.

O ensino híbrido segue uma tendência de mudança que ocorreu em praticamente todos os serviços e processos de produção de bens que incorporaram os recursos das tecnologias digitais. Nesse sentido, deve ser entendido não como mais um modismo que cai de paraquedas na educação, mas como algo que veio para ficar.

Todas as transformações observadas na indústria, comércio e serviços, desde a massificação da informatização e tecnologias, a partir do novo século, fizeram com que o foco das atividades passasse aos usuários, ao invés de serem providas pelos agentes que ofertavam os serviços.

Restaurantes por quilo, caixas bancários automatizados, lojas e supermercados com autosserviço, fizeram com que o cliente passasse a servir-se ao invés de ser servido, ao mesmo tempo que muitas tecnologias permitem o desvinculamento geográfico entre o cliente e o serviço, como aplicativos bancários, de músicas e de pedidos de alimentação nos smartphones.

E uma vez que essas facilidades vieram para ficar – e evoluir – um dos poucos, senão o único, serviço que ainda não passou – completamente – por essas inovações, é a educação (VALENTE, 2015).

O ensino híbrido permite-se assumir a intermediação entre a inovação sustentada e a disruptiva, na área da educação. É a partir dele que se pretende que o estudante modifique suas posturas em relação à aprendizagem, à construção do seu conhecimento, e principalmente, à significação que ele deve dar a essa construção.

aprendizagem-3O ensino híbrido é provocador de uma profunda mudança tanto nos hábitos dos estudantes, quanto nos comportamentos dos professores (VALENTE, 2015). E essas mudanças nos processos educacionais, proporcionadas pela introdução do ensino híbrido, são quase naturais, embora haja dois pontos a serem considerados.

O primeiro é que já existe um cenário social de uso intensivo de tecnologias, incluindo aquelas da “palma da mão”, que predispõem a uma adesão imediata das mudanças, por parte dos estudantes. O segundo é que há um necessário movimento de instituições, professores e estudantes, em sair da zona de conforto de papéis muito bem estabelecidos, que vão de detentores da diplomação, a detentores do conhecimento, até o de receptores do conhecimento e da diplomação.

 

Referências:

CHRISTENSEN C.M., HORN M.B., STAKER H. Uma introdução à teoria dos híbridos. Online: http://isesp.edu.br/ensinohibrido/curso/ Última atualização: 2013. Acesso: 15Fev, 2016.

VALENTE J.A. O ensino híbrido veio para ficar (Prefácio). In: Ensino Híbrido. Personalização e tecnologia na Educação. Porto Alegre, RS: Editora Penso; 2015

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Uma visão diferente sobre aprendizagem

A revolução digital é, sem sombra de dúvidas, causa e consequência das mudanças necessárias na educação como um todo, e do Ensino Superior, no contexto desta proposta. No bojo da revolução digital, surgiu uma nova expressão e forma de ver o mundo: o empreendedorismo. Basta esclarecer que a palavra EMPREENDEDORISMO não existia no dicionário até o ano 2000 e que hoje, uma busca Google traz mais de 15 milhões de resultados em 0,43 segundos.

O problema central deste diálogo inicial é o empreender como estratégia na multiplicação de capital intelectual para inovações na aprendizagem, tendo como ponto de partida a mudança de mindset para hibridização das estratégias pedagógicas.

think outside the box3Empreender é uma atitude que não está ligada, necessariamente, a ter uma empresa. Empreender é um modo de pensar e agir de forma inovadora, identificando e criando oportunidades, inspirando, renovando e liderando processo.

Empreender é tornar possível o impossível, entusiasmando pessoas, combatendo a rotina, assumindo riscos em prol de resultados positivos. Uma visão empreendedora é, em síntese, uma visão inovadora, que transforma informação e conhecimento em oportunidades, e que pode resultar – até – em um negócio próprio (empresas, startups) ou simplesmente modificar uma rotina de um local de trabalho, o que se define como uma ação de intraempreender.

Em uma sociedade da informação, onde praticamente todo conhecimento pode ser acessado da palma da mão, por um smartphone, o papel do professor, dos estudantes e dos profissionais, necessita de urgente ressignificação.

“O que define a aprendizagem não é saber muito, é compreender bem aquilo que se sabe. É preciso desenvolver nos alunos a capacidade de estudar, de procurar, de pesquisar, de seleccionar, de comunicar. Para isso, o professor é insubstituível.” (António Nóvoa, 2016)

Para compreender o ponto de vista de Nóvoa, cada professor precisaria desapegar de seu quadro e seu projetor na sala de aula, suas anotações ensaiadas sobre o que falar em cada momento da aula. Mas, e principalmente, deixar de ressentir-se daquele momento em que os estudantes estão manuseando seus smartphones como uma competição. É preciso tomar este momento como oportunidade. É disso que trata um novo pensamento educacional, ou um novo mindset.

mindsetMeus estudos e projetos tratam da aprendizagem, e não do ensino; tratam do engajamento protagonista do estudante na sua própria aprendizagem por caminhos inovadores para todos os envolvidos; tratam da inovação rumo à disrupção na educação, e não de simples inserções multimídia em um modelo pedagógico conteudista vigente.

São propostas inspiradas no pensamento moderno de um dos educadores mais respeitados do mundo, e em como ele, do alto dos seus sessenta anos de idade, já percebeu que a disrupção caminha para dentro da educação a passos largos.

Inspiram-se também no acompanhamento de estudantes de graduação e de pós-graduação, de suas aspirações a contextos profissionais, suas dificuldades em adaptar-se – lá fora, como dizem – ao novo, ao inovador, ao transversal, quando nos bancos da academia seus professores seguiram modelos de ensino que os convidava apenas à memorização de conteúdos.

Como eixo condutor para uma proposta inovadora de aprendizagem, com aspiração de ser disruptiva em um momento posterior, estou desenvolvendo uma proposta que se utiliza de uma das áreas transversais mais tecnologicamente articulada entre profissões da saúde, e cujo franco crescimento na última década atraiu os estudantes e profissionais de modo quase paradoxal. Por um lado, a análise do movimento, qualitativa e quantitativa, é meio e método de intervenção para diferentes profissões da saúde – como Terapia Ocupacional, Medicina, Educação Física, Fisioterapia, Fonoaudiologia – cujo domínio assegura ao profissional um diferencial relevante no mundo do trabalho.

Por outro lado, a complexidade da biodinâmica, que envolve uma análise de movimento, qualitativa ou quantitativa, exercita ativamente, e com significado pleno de aplicação, uma integração de conhecimentos pouco motivada nos currículos tradicionalmente conteudistas. Isso se traduz num grau de dificuldade que acaba por se materializar, justificando a paradoxalidade, em obstáculo à adoção de seus instrumentos no repertório de atuação.

Essa série de posts no blog traz a minha visão de inovação para a educação superior, e as muitas maneiras de pensar e agir que, eu acredito, serem possíveis e viáveis para promover mudanças nos rumos da aprendizagem. Trata de como velhos mapas não levam a novos mundos, e de como já consegui atravessar um oceano e me juntar a outros pesquisadores que acreditam que, juntos, podemos desenhar novos mapas.

Você está convidado a me acompanhar!

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